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“Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo.” (João 17,16)

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As tradições religiosas são fartas em indicar dois caminhos para se atingir a Luz. Um é trilhado com a disciplina, o trabalho, a paciência, a dedicação intensa e duradoura. Assim é o Yoga; assim é o caminho dos que se recolhem nos monastérios. A outra opção pode nem mesmo constituir um caminho, uma vez que o Divino pode ser alcançado num instante. Assim é o (verdadeiro) Tantra; também foi isso o que aconteceu com o ladrão que, na cruz, recebeu de Jesus a promessa do paraíso para aquele mesmo dia.

Os nomes são diferentes, as cores e tons mudam de uma religião para outra, mas todas – de um jeito ou de outro, às claras ou nas entrelinhas, expressamente ou por meio de parábolas, com base em fatos históricos ou por meio da ficção – indicam essas duas possibilidades de se alcançar Deus.

O primeiro poderia ser chamado “o caminho da construção de um novo homem”. Com a disciplina, o estudo, o esforço, o buscador vai transformando-se, pouco a pouco, a cada dia, numa pessoa “melhor”.

Já o segundo poderia ser chamado de “desmoronamento”. Em vez do esforço para a construção de um novo homem, trata-se da demolição do ego, da destruição da individualidade que pensamos que somos.

Enquanto a característica principal do primeiro caminho é o esforço, a do segundo é o desapego.

Um peregrino do primeiro grupo, por exemplo, em suas meditações, imaginará, ao expirar, que está jogando fora todas as suas tensões; ao inspirar, que está recolhendo a energia do Bem que permeia o Universo.

Já um peregrino do segundo caminho recolherá para si – na inspiração –as dores do mundo; na expiração, doará todo o seu Amor a todos.

O primeiro caminho é muito bom, mas pode apresentar um grave perigo: o de ser usado como um simples calmante, como uma fuga, um remédio. Pode se transformar num mero “Prozac” existencial. Poderá até trazer a paz, sem chegar perto, porém, da verdadeira Paz. Poderá até levar à perfeição, ma sem roçar a Compaixão.

Já a segunda trilha pode virar um inferno, pode doer, pode levar ao desespero, à solidão, à loucura, mas também pode nos levar à verdadeira Luz num segundo, agora!

E pensar que menos de um milésimo da população mundial chega à bifurcação desses dois caminhos…

E o mais assustador: desse milésimo, só um décimo de milésimo escolhe a segunda opção…

P.S.: Realmente, toda busca espiritual, até mesmo a do segundo tipo, corre o risco de redundar em fuga da realidade, o que não é nem de longe seu objetivo. Dessa maneira, a busca acaba se igualando às fugas “normais” da humanidade, como as drogas, a luxúria e todas as demais compulsões. Não é à toa que os viciados em drogas e outros tipos de adictos dão a impressão de que, nas suas testas, está afixada uma placa com os dizeres “VOLTO LOGO”. E o pior de tudo: a placa, geralmente, já está velha…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em abril de 2011.

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