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A MAIOR GUERRA DE TODAS

        Estamos sendo bombardeados pelos programas de televisão que trazem como principal atração as pegadinhas. Além do péssimo gosto e da humilhação reinantes em quase todas as pegadinhas, um ponto me chama a atenção nelas: o ódio que impera na humanidade.
        É claro – repito – que as vítimas das câmeras são humilhadas, desrespeitadas, ridicularizadas. Mas também é fato a imediata e selvagem violência com que elas respondem às provocações. De um segundo para outro, despontam murros, palavrões, rasteiras. Isso é gente…como a gente, tanto os autores como as vítimas dessas pegadinhas..
        A quase totalidade dos meios de comunicação reverbera um grito de apoio à pena de morte, a penas de prisão mais longas, a um Estado cada vez mais policial e menos social. Por mais que os próprios meios de comunicação criem em parte esses gritos ( com o fim de aumentar a audiência, de vender mais jornais, de condicionar o povo a consumir, consumir, consumir), não podemos negar que o povo tem um grito de linchamento contra o outro. Isso é gente…como a gente.
        Muitas pessoas querem que suspeitos sejam torturados, mortos, humilhados ( desde, é óbvio, que os suspeitos não sejam eles próprios, seus parentes ou amigos). Em Israel ( e nos Estados Unidos depois de 11 de setembro de 2001), a tortura é abertamente praticada e justificada (contra os palestinos ou “os outros”, “os diferentes” da vez). Os norte-americanos e israelenses são gente…como a gente.
        No trânsito, ricos, pobres, executivos, intelectuais, dondocas, machões, patricinhas, operários, motoristas, passageiros, pedestres, todos, todos, todos xingam, todos fazem aquele elegantíssimo gesto com o dedo médio, todos agem como feras, todos querem passar uns por cima dos outros. Isso é gente…como a gente.
        Nas escolas, crianças e adolescentes desrespeitam os professores e os funcionários, chegando a ameaças e agressões. No comércio, compradores e vendedores buscam enganar uns aos outros. Vagas de estacionamento são disputadas a tapas. Filas de ônibus são furadas; filas de mercados são burladas ( cada membro da família fica numa fila, até que uma é liberada; vários carrinhos, então, unem-se ao que estava a nossa frente). Espertalhões procuram passar a perna em espertos; espertos tentam enganar sabidos, e assim por diante, numa linha viciosa sem fim. Isso é gente…como a gente.
        Ricos esbanjam em futilidades; pobres só não possuem o dinheiro dos ricos, mas possuem tanta ganância como aqueles. Religiosos primam pela obediência a rituais, mas, fora dos templos, muitos exploram os mais fracos, sempre em busca do deus Dinheiro. Todos se assustam com os crimes, mas muitos vão comprar produtos de origem duvidosa, sem se preocuparem se estão sendo verdadeiros receptadores. Isso é gente…como a gente.
        Não basta simplesmente eliminar tiranos. Não basta simplesmente acabar com as armas de destruição em massa.
        Para alcançarmos a PAZ, precisamos acabar com os campos de batalha.
        E o principal, o maior, o mais tenebroso campo de batalha não fica no Iraque, em Nova Iorque, em Pequim, em Moscou.
        Ele fica no coração…no coração da gente.

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P.S.: Em razão da ressaca pré-ano-novo, republico artigo que já saiu no Imprensa Livre, há cerca de dez anos. Para sábado, véspera do Natal, prometo um texto inédito. Até lá!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em dezembro de 2011 (já havia sido publicado, no mesmo periódico, dez anos antes dessa data).

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Baú do Odair

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