A MAIOR TRAGÉDIA DE TODAS.

Uma colunista de um dos representantes da grande imprensa do Brasil escreve, na sua última edição, que não deveríamos estar comemorando o Carnaval, uma vez que a tragédia ocorrida em Santa Maria ainda é muito recente, além do que muitas de suas vítimas ainda estão internadas em hospitais.
​É claro que as vítimas de Santa Maria, seus parentes e amigos merecem toda nossa solidariedade.  É claro que qualquer pessoa com um mínimo traço de humanidade sentiu tristeza diante daquele horror.
​Não podemos nos esquecer, porém, que muitas mortes ocorrem a nossa volta, todos os dias, sem que nos preocupemos em fazer algo para mudar esse quadro.
​Com cerca de 41 mil mortes no trânsito (dados de 2010), a cada dois dias, no Brasil, o mesmo número de mortos de Santa Maria cai sem vida em nossas ruas e estradas.  E não fazemos nada…  Aqui onde moro, em São Sebastião, é revoltante o desrespeito dos motoristas pela faixa de pedestre, desrespeito que acontece em quase todas as cidades (exceção digna de nota e de elogios é Caraguatatuba, distante daqui pouco mais de vinte quilômetros).
​Já escrevi, certa vez, que o Brasil é o resultado do cruzamento do caos com a entropia.  Como essa definição se aplica com perfeição ao nosso comportamento no trânsito…  Motoristas realizam ultrapassagens insanas, numa pressa inexplicável.  Motociclistas querem revogar aquela lei da Física, segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, querendo passar ora pela direita, ora pela esquerda, quase sempre invadindo a mão contrária.  Ciclistas acham que não precisam obedecer nenhum regulamento, embora estejam conduzindo um veículo (de tração humana, mas veículo…aliás, dependendo do ciclista, melhor seria definir a bicicleta como de tração “animal”).  Igual comportamento desenvolvem os pedestres, que desrespeitam abertamente os semáforos.
​Dá para fazer um país, assim?
​Somos a terra do 8 ou 8.000.000.  Hoje se encontram botijões de gás em quase todo lugar, até em bares, sob mesas de bilhar, com homens fumando e bebendo sobre eles.  Se amanhã ocorrer uma explosão, com certeza, nos dias seguintes, serão lacrados milhares de bares; talvez até seja proibido o uso de gás de cozinha…precisaremos comprar lenha…  Em vez de exageros – tanto na falta de fiscalização, como no excesso desta – não seria melhor uma ação permanente, rígida, mas com bom-senso?​
​Preciso também fazer uma observação sobre os socorristas voluntários que atuaram em Santa Maria.  Com certeza a maioria estava lá para ajudar.  Muitos, porém, só queriam aparecer na TV.  Aliás, muitos dos que foram até lá para ajudar desconhecidos, muitas vezes não visitam nem o pai idoso.  É como aquela história do adolescente ir fazer limpeza na praia, enquanto seu quarto parece ter sido atingido por uma bomba atômica…
​A nossa maior tragédia tem um nome: hipocrisia.  Só seremos um país de verdade, quando pararmos de acusar os outros; quando alcançarmos a consciência de que o mal do Brasil está em cada um de nós: quando desrespeitamos a faixa de pedestre, quando furamos fila, quando compramos mercadorias de preço inexplicavelmente baixo, quando baseamos nosso voto em interesses escusos.  Só sabemos falar mal dos políticos.  Nós nos esquecemos, porém, de que eles não vieram de Marte; eles vieram do nosso meio, por intermédio de nossa escolha.
​Precisamos parar de posar de pobres vítimas.
​Somos os autores!

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P.S. No meu site www.odair.com.br  eu leio e comento este e outros textos de minha autoria.  Aguardo sua visita!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em fevereiro de 2013.

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