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A Viagem

Neste Natal fui para São Paulo.  De ônibus.

​Antes de tudo, porém, vamos deixar o ônibus parado por alguns instantes.  Vou aproveitar para fazer uma propaganda minha.  Você sempre pôde ler meus artigos na Internet, visitando http://www.odair.com.br, isso não é novidade.  A notícia mais aguardada dos últimos anos, porém, já é realidade: agora você pode ouvir meus comentários (mais ou menos diários, com 15 minutos de duração) sobre os fatos locais, do Brasil e do Mundo, visitando http://www.odair.XXX(1).  Voltemos para o ônibus.

​Eu tenho tanto pavor de viajar, que, se acreditasse em vidas passadas, com certeza eu teria sido um caracol na última encarnação.  Não gosto de sair de casa.  Principalmente para fazer viagens longas, sem paradas.  Aliás, gostaria de saber por que inventaram a Capital tão longe de São Sebastião.  Isso é um despropósito.

​Por falar em despropósito, parece que as poltronas dos ônibus foram projetadas para aves, não para seres com braços.  Dizem que os adolescentes não sabem onde enfiar as mãos; já os passageiros não têm onde enfiar os dois braços.  (Eu sei que, neste momento, já há pessoas me chamando de gordo, mas vou fingir que nem percebi).

​Dormi antes de sair da Rodoviária.  Acordei, logo depois, quando o ônibus ainda estava nas cercanias da balsa.  Consegui ficar acordado até o Bairro…voltei a dormir.

​Acordei já na Tamoios, depois de subir a Serra no meio de sonhos (e de roncos, diriam as más línguas), com a cabeça de minha filha mais velha batendo em meu ombro.  Não consegui dormir de novo.

​Olhei a paisagem, olhei a estrada, olhei o interior do ônibus, olhei a paisagem, olhei a estrada, olhei o interior do ônibus…

​Sei que não é nada politicamente correto o que vou dizer, mas eu estava morrendo de vontade de fumar.  Hoje, porém, fumar é o ato mais reprovável da humanidade.  Essa abominação do ato de fumar é uma mera questão cultural, não de saúde pública.  Provo o que digo: você já viu aqueles filmes das décadas de 30, 40, 50 ?  Todos fumavam, em todos os lugares, em todos os momentos (até o cinegrafista deveria fumar enquanto filmava).  E ninguém reclamava, ninguém afastava a fumaça com as mãos, ninguém nem mesmo fazia uma simples careta de desaprovação para um fumante, mesmo que fosse dentro de um elevador.  Isto não quer dizer que aconselho alguém a fumar; pelo contrário, eu mesmo queria conseguir parar.  Mas que eu estava com vontade de fumar, estava, mesmo.

​Fiquei pensando se, em vez do banheiro a bordo, não seria mais interessante uma lanchonete (sem frituras e sem máquina de caldo-de-cana, é claro).

​Que tédio !!!

​Já vi pessoas que fazem combinações esquisitas: rocambole com maionese, creme de leite com feijoada, etc.  Minha mulher, porém, não fez por menos: levou metade de um panetone.  Como se pode comer panetone em uma viagem de ônibus ?  Não combina. 

​Eu já não sentia mais minhas pernas, um pedaço de meu corpo suava, outro recebia o ar gelado daquele instrumento que fica sobre as poltronas, ao lado de uma pequena lâmpada (confesso que nunca aprendi a lidar com tais acessórios).

​Por três vezes, querendo posar de grande conhecedor da Via Dutra, apontei para minha filha a fábrica do Toddy…que nunca apareceu.

​Diante do desespero, tive um pensamento funesto.  Será que morremos todos na Serra, e esta viagem é, na verdade, o inferno?  Será que este é o que chamam de fogo eterno ?

​Mas começou a descer gente.  Em cada viaduto descia alguém: era o caos.

​E eis que o que parecia impossível aconteceu: chegamos.

​Desci desesperadamente, coloquei um cigarro na boca…perdi o isqueiro.

​Espero que meus pais venham para São Sebastião no ano novo.

​Por que fizeram São Paulo tão longe ???




Publicado originalmente no extinto semanário “Correio do Litoral”, em dezembro de 2003.

(1) – Omiti a URL, por se tratar de domínio que já não é meu. Vale destacar que antes de 2003 eu já publicava meus áudios, muito antes de receberem o nome, em “bom português”, de “podcasts”…

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Baú do Odair

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