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A Vida

É como se a Vida fosse sentir o vento no rosto, quando andamos de bicicleta. Se a bicicleta estiver parada, não corremos o risco de cair, mas também não sentimos o vento. Se ficarmos três, cinco, oito anos estudando a bicicleta, a Mecânica, a arte de tornear os metais, poderemos saber construir uma bicicleta, poderemos explicar o seu movimento, mas para sentirmos o vento no rosto, só pedalando. E não basta uma pedalada só: são necessárias pedaladas constantes. Também não adianta colocar um ventilador direcionado para nós: o vento no rosto de quem está andando de bicicleta é único, sem substitutos.

É como se alguns nascessem com sorte, começando com suas bicicletas no cume de um morro muito alto, nada precisando fazer para conseguirem o vento no rosto, além do respeito à lei da gravidade. Às vezes, a viagem é retumbante. Outras vezes, porém, retumbante é o tombo.

É como se outros nascessem no mesmo morro, mas em vez de aproveitarem a descida, resolvessem fazer a subida, num esforço sem sentido, pedalando arduamente, não sentindo quase nenhum vento. Enquanto isso, a grande maioria fica lá embaixo, pedalando no plano, acelerando, parando, caindo, retomando a marcha, acelerando, buzinando, buzinando, buzinando…

Alguns nascem ou chegam em barreiros, encalhando. Uns lutam para sair do atoleiro, outros se entregam à fatalidade.

É como se uns tivessem bicicletas velozes, verdadeiras maravilhas. Outros se percebem em pangarés de duas rodas.

É como se uns passassem a vida em busca de acessórios, enfeites, deixando de fazer a manutenção básica, necessária, e só percebessem isso quando suas bicicletas acabam desmontando em plena corrida.

É como correr o risco de, a cada pedalada, cair. E, mesmo diante desse risco, continuar a pedalar, sempre e sempre.  Tudo pelo vento no rosto, tudo pela carícia maravilhosa que o vento faz no rosto de quem pedala. Sem procurar um motivo lógico, só por sentir o vento…

É como se alguns pouquíssimos conseguissem perceber que ajudar as pedaladas dos outros é ainda mais maravilhoso do que o vento no próprio rosto, mesmo que, para isso, seja preciso, às vezes, deixar-se cair.




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em março de 2010.

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