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Amigo Fiel

Outro dia trabalhei em Caraguatatuba.  Na volta para São Sebastião, disse ao meu chefe que ficaria em casa, a fim de pegar meu Fusca.  Ele retrucou que, se meu carro fosse qualquer outro, eu teria dito simplesmente que iria pegar o carro; mas como se tratava de fusca…

De fato, quem tem fusca não pega um carro, nem mesmo um fusca: pega o seu Fusca.

Esse automóvel é um verdadeiro cachorro mecânico, comparando-se aos cães em termos de companheirismo.

Quem tem mais de quarenta anos (tenho 47), com certeza coleciona histórias sobre esse membro da família.

Na infância, quantas vezes – geralmente às escondidas – fingia dirigir os fuscas dos amigos de meu pai, tomando cuidado para que a direção não travasse.  O barulho do motor ficava por minha conta; a buzina, idem.  A viagem era imaginária, mas a alegria era real.

E quando, já na adolescência, meu amigo mais velho tirou sua carteira de habilitação?  Sua mãe perdeu o carro: todo dia saíamos com ele.  Eu me lembro de que o possante chegou à lotação de oito passageiros (mais o motorista).  Como?  Não me pergunte.  Foram quilômetros inesquecíveis…

Preciso confessar – com verdadeiro constrangimento, e torcendo para que meu Fusca não tenha acesso a este artigo – que meu primeiro carro foi uma Brasília.  O segundo foi um Passat TS.  Mas logo troquei este último por um fusca zerinho.  Branco, é óbvio.

Confesso, também, que, ao entrar no poderoso, depois de quase um ano de Passat, achei o espaço meio apertado.  Isso, porém, logo ganhou outra qualificação: ele era aconchegante.  Essa característica, aliás, demonstrou-se muito útil nos namoros dentro do manhoso cúmplice…

Esse meu primeiro companheiro tinha um problema motivado pela bebida.  Não há como negar: o fusca a álcool não deu muito certo.  Em muitas manhãs paulistanas de frio, lá ia eu empurrando o dengoso, na esperança de que pegasse.  Isso, porém, acabou fortalecendo o relacionamento com a vizinhança, que já ficava à espreita para ajudar.

Daí para a frente, foi uma sucessão de fuscas – todos brancos, com exceção de um “baja buggy” que – literalmente – soltava fogo pelo escapamento.

Já casado, meus filhos passaram a batizar os fusquinhas, os quais – como já disse – passavam a fazer parte da família.  Floquinho, Sansão, Bolinha, foram muitos.  E cada um deles tinha sua personalidade própria, suas manias, suas marcas do passado, até suas teimosias.  Mas foram todos amigos fiéis.

Fusca tem alma, sente, sabe quando falamos dele.

Meu fusca atual está entrando na crise dos trinta anos.  Embora já não tenha a força da juventude, às vezes quer posar de adolescente.  Acaba tendo problemas, é lógico.  Qualquer curioso, porém, acaba dando um jeito.

E lá vai o Flocão de novo…

E eu vou com ele…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em novembro de 2008.

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Baú do Odair

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