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CADÊ?

        Era assim: de maneira inocente, um extrato bancário era colocado sobre aquela mesa. Uma revista ia sobre o extrato, mais um boleto, outra revista, um bilhete de loteria. Surgia outro extrato, um envelope com fotografias, o carnê do IPTU, uma conta de luz, de água, extratos de cartão de crédito, um recorte de jornal.

        Em pouco tempo, uma pilha instável, verdadeira torre de papel, escondia o que um dia fora uma mesa.

        Quando a torre ficava por demais instável (ou quando, finalmente, ela desmoronava), não restava outra coisa a fazer: colocava aquele mundo de papéis em um saco de lixo e o guardava (escondia?) no quartinho dos fundos.

        Imediatamente a seguir…de maneira inocente, uma revista era colocada sobre a esteira, mais um extrato, um boleto, um… E depois de algumas semanas, lá ia outro saco abarrotado para o quartinho dos fundos.

        O grande problema é que sempre chegava um dia (ou uma noite) em que era necessário um certo papel, papel que estava num dos sacos… As buscas começavam pelo estabelecimento da idade do saco. Constatando-se que os papéis do saco “x” tinham – aproximadamente – a mesma idade daquele papel que estava sendo procurado, tinha início uma busca intensiva nesse saco. Em geral o documento procurado só era encontrado (quando era encontrado) depois de quatro ou cinco sacos vistoriados ( e os sacos eram bem grandes!).

        Repito, agora, as duas palavras que abriram este texto: era assim; era, não é mais.

        Tudo mudou depois da Ivani.

        Ela é muito competente em todos os afazeres domésticos, isso é verdade. Num departamento, porém, ela é ímpar, inigualável, insubstituível: ela organizou tudo na minha casa. Os documentos bancários estão em uma pasta com a inscrição “Bancos”. As contas de luz estão numa pasta com a rubrica “Luz”. Impressionante!

        Cada coisa em uma pasta, dentro do armário: “Documentos Odair”, “Carro”, “Telefone”. Sacos de lixo, agora, só para lixo, mesmo.

        E não foram apenas os papéis que ganharam organização. Ela atuou também nos CDs, nos DVDs, nas fotografias, etc. Antigamente, por exemplo, meus CDs eram todos amontoados. Para encontrar um disco específico, era preciso ter sorte; ou paciência para conferir um por um. É lógico que era mais fácil desistir da idéia…

        Depois da Ivani, voltei a ouvir música.

        Como tudo na vida, porém, a organização trazida pela Ivani não é perfeita. A escolha da pasta de armazenamento é um tanto quanto arbitrária: a carta com a senha bancária pode estar na pasta “Bancos”, mas nada impede que esteja arquivada em “Correspondência” ou em “Documentos Odair”.

        Qual a saída? Simples: chamar a Ivani… E em segundos lá está a senha procurada.

        Em outras palavras: eu e minha família, hoje, dependemos da Ivani para encontrar qualquer documento. Isso é bom, mas também é um perigo: sem a Ivani, o que poderemos (conseguiremos?) fazer?

        Assumindo essa dependência, estou lutando para que a Ivani pare de fumar: ela precisa viver muito. Também faço discursos para que sempre se alimente de forma saudável.

        Tudo indica que ela ainda vai viver muitos e muitos anos. Sua saúde parece estar muito boa (se bem que,inexplicavelmente, dias atrás, ela conseguiu prender uma perna no vão existente entre as grades do portão de minha casa…mistério…mas deixemos isso para lá…).

        Por falar no portão, eu preciso chamar o serralheiro, para que ele conserte uma janela. Cadê o cartão com o telefone dele?

         – Ivani!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em outubro de 2010.

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