DETALHES.

O Zé é uma ótima pessoa.
​Já o chamara algumas vezes, sempre para pequenos reparos: trocar o couro de vedação de uma torneira, instalar um chuveiro, trocar o capacitor de um ventilador.
​Quando da instalação do novo chuveiro, eu já deveria ter percebido algo estranho no ar…ou na água.  Todos conhecem aquela lei da Hidrodinâmica, segundo a qual,sempre que, no mesmo banheiro em que alguém está tomando banho, outra pessoa dá a descarga no vaso sanitário, além de sons e odores eventualmente indesejáveis, dois fenômenos acontecem: 1 – ficamos desejosos de saber por que aquela pessoa não usou outro banheiro, ou, pelo menos, por que não esperou que o banho terminasse?; 2 – o fluxo de água no chuveiro é interrompido, durante o tempo em que a água cai no vaso.  Em dias mais frios, aqueles segundos sem nenhuma gota no chuveiro são extremamente irritantes…  Mas o Zé conseguiu ampliar os limites dessa Lei: quando abro a torneira do lavatório, o chuveiro pára.  Fazer a barba se transformou em um problema muito complexo.
​Mas, como disse, nem levei a sério o fato acima narrado.  Tanto isso é verdade, que chamei o Zé para solucionar um entupimento na pia da cozinha.  Deixei o especialista analisando, de quatro, o que ocorria com o encanamento, e fui trabalhar.
​Voltei para casa na hora do almoço: ele me disse, com o mesmo ar com que um médico dá seu veredicto, que o vazamento era mais profundo…precisaria quebrar o piso sob a pia para novas investigações.  Num gesto que iria causar-me muito arrependimento, respondi, sem dar muita importância a sua fala: o senhor pode fazer o que for necessário.
​Nessa noite, quando abri a porta da cozinha, lá ainda estava o Zé, com uma marreta na mão.  Do piso quase nada sobrara; da pia…que pia?  Disse-me que descobrira o vazamento, mas era bem maior do que imaginara; fora, então, rasgando o trajeto das águas em fuga, chegando a quebrar alguns azulejos, em busca de outros possíveis vazamentos.  Diante do campo de batalha em que se transformara nossa cozinha, até mesmo minha mulher, que sempre quisera trocar o piso e o azulejo, tinha um olhar de “o que é isso, meu Deus?”
​Para resumir a história, trocamos a pia, o encanamento, o piso e o azulejo.  Já que haviam sobrado apenas as paredes, também instalamos armários novos.  E coifa nova.  Para combinar com o armário novo, também chegaram mesa e cadeiras novas.  Para combinar com o inox da coifa, nova geladeira, novo freezer e novo fogão.  Por último, novos ventiladores de teto.
​É claro que, assim como fizera quando da instalação do chuveiro, o Zé deu seus toques especiais na nossa cozinha.  O botão de ligar a coifa, por exemplo, acionava um dos ventiladores.  Quanto à coifa, seu botão de acionamento ficava na parede oposta.  Pode parecer loucura, mas sou capaz de jurar que, quando a coifa é ligada, as luzes ficam mais fortes.   Também desconfio de que o rádio pega melhor, quando a torneira é aberta.  Eu me sinto meio tonto dizendo isto, mas, com as janelas abertas, a torradeira esquenta o pão muito mais rápido.
​Fazer o quê?  Além de tudo, o Zé é uma ótima pessoa.
​Já nos acostumamos com esses pequenos “detalhes”. Ontem, por exemplo, chegou o novo micro-ondas.  Minha filha mais velha foi esquentar um copo de leite, mas o aparelho não ligava.
​- Já tentou abrir a porta da sala primeiro, Gabriela?




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em fevereiro de 2013.

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