E não é que agiotagem ainda é crime?

O genial dramaturgo alemão Bertold Brecht se questionava se roubar um banco era pior do que fundar um banco. É claro que a primeira figura é crime gravíssimo, merecendo a reprimenda da lei. Mas a conduta dos bancos, principalmente no Brasil das últimas décadas, vem fazendo com que pensemos que Brecht talvez não estivesse muito errado…

De fato, é diabólica a atuação dos bancos, com suas táticas, suas artimanhas, as letras pequenas de seus contratos, as taxas enigmáticas que aparecem nos extratos.

Dizem que o Diabo só entra na vida de alguém, quando este alguém o convida a entrar. Os donos e defensores dos bancos usam esse mesmo argumento (que coincidência!): nenhum banco obriga seus clientes a tomarem dinheiro emprestado. Esse argumento, porém, não tem a mínima lógica. As situações da vida já são feitas de tal maneira, que quase todos – pelos menos os assalariados – acabam caindo nas garras de alguma instituição bancária. Mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro, pessoalmente ou por meio de algum parente, quase todas as pessoas que dependem de salário vão acabar como reféns de cheque especial, crédito pessoal ou cartões de crédito. O argumento dos bancos é como dizer ao diabético que ninguém mandou usar a insulina “x”. Realmente, acabaremos caindo nas redes dos bancos, seja o “x”, o “y” ou o “z.”

Os bancos sempre foram – e são – entes famintos, em todo tempo, em todo lugar. Agora, porém, especialmente no Brasil, eles estão com uma fome de náufrago que acabou de ser resgatado de longa temporada no mar. Isso é muito fácil de ser provado. Na época em que a inflação era grande, os juros eram um pouco maiores do que ela; o importante, porém, é que a caderneta de poupança rendia a inflação mais 0,5% ao mês. Por exemplo: se a inflação era de 20% ao mês, os juros eram de 22%, enquanto a caderneta rendia 22,05%. E hoje? A inflação em 2010 foi de 5,91% ao ano (pelo índice denominado IPCA), enquanto a poupança rendeu 6,90% ao ano. Já os juros do cheque especial giraram em torno de 7% a 13% – mas ao mês!!!. Os juros do crédito pessoal são um pouco menores. Já os juros do crédito rotativo dos cartões de crédito atingem a estratosfera, principalmente quando são cartões vinculados a estabelecimentos comerciais: há casos de juros de até 540% ao ano!!! Os mais “baratos” ficam em torno de 12% ao mês.

Veja bem: de um lado, a caderneta de poupança remunerou, para cada cem reais, seis reais e noventa centavos em 2010. Mas se você rolou essa mesma quantia no cartão de crédito, pode estar devendo, hoje, até quinhentos e quarenta reais! Muito lógico, justo e honesto, devem pensar os banqueiros…

E vale lembrar que, quando teve início o Plano Real, os bancos, alegando que tiveram perdas, passaram a cobrar taxa para tudo (ainda vão criar taxa para podermos falar “bom dia” para os seguranças, pode esperar). Mesmo com o universo de taxas que foram criadas, os juros aumentaram, aumentaram, aumentaram.

Na Europa, na América espanhola, no Japão, em quase todos os cantos do mundo, o povo se revolta com os absurdos. Aqui no Brasil, consideramos normal a situação apontada acima.

As instituições financeiras ainda têm a cara de pau de colocar a culpa na taxa SELIC e no índice de inadimplência. Balela! A taxa SELIC está em 11,16% ao ano. Por sua vez, as próprias instituições vivem enviando cartas para seus clientes – mesmo para os que já estão bastante endividados, muitos dos quais aposentados – oferecendo novas linhas de crédito. Em resumo: a única causa para os juros cobrados é a descarada gula das instituições. Essa gula, porém, não poderia sobreviver, caso o governo deixasse de ser hipócrita, caso a população deixasse de ser bovina.

Se o governo proibisse essas gritantes disparidades, as coisas seriam diferentes. Mas em vez disso, o governo faz maldades semelhantes no seu banco, o Banco do Brasil.

E se nós protestássemos – pacífica mas incisivamente, boicotando os bancos o máximo possível, estes iriam acabar diminuindo a sua ganância.

Até que o governo e cada um de nós mude, porém, vamos pagar…pagar muito caro.

P.S.: Estou inaugurando um site para troca de experiências, sugestões de ações e comentários em geral sobre o boicote, talvez a única arma pacífica disponível para que os consumidores possam cobrar o respeito que merecem. Fica aqui o convite para uma visita: http://www.boicote.org




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em janeiro de 2011.

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Baú do Odair

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