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ENTENDEU A PIADA?

Se um dia eu aparecer morto por aí, de forma violenta, pode ter certeza de uma coisa: terá sido obra de alguém que já me atendeu em algum estabelecimento da região. Meu assassino será, sem dúvida nenhuma, um comerciante ou um comerciário com sede de vingança.

Não, não me refiro à vingança gerada por uma discussão, por um desentendimento. Isso passa; pode até demorar um pouco, mas acaba passando.

O grande problema não está nas vezes em que discuto (cada vez mais raras, ainda bem). O grande perigo mora nas ocasiões em que eu tento ser engraçado.

A primeira pessoa suspeita da autoria da minha morte, com certeza, seria a Dona Nila, da Satélite, na Rua da Praia. Há mais de vinte e um anos, pelo menos uma vez por semana, este diálogo acontece:

–  Tem a revista “x”, Dona Nila?

–  Ainda não chegou.

– Então eu quero duas!

Imagine, caro leitor, ouvir essa tentativa infame de fazer graça, durante mais de vinte e um anos!

E falei da Satélite apenas como exemplo; já fiz essa “graça” em vários outros estabelecimentos (ainda ontem, soltei isso em uma farmácia).

Mas voltando a falar da Satélite, o Seu Jarbas já deve estar careca…digo cansado de me ouvir, assim que entro na loja, perguntar pelo meu troco…antes de ter feito qualquer pagamento.

Os balconistas de uma certa seção de frios já não devem mais aguentar meus comentários sobre um queijo que traz, na embalagem, a menção “queijo esférico”, o qual é, porém, um cubo. É um absurdo, é claro, chamar um queijo cúbico de esférico. Mas fazer piada sobre isso todo dia…todo dia…pode até não ser um absurdo, mas deve ser muito chato.

Eu confesso que tento me segurar, mas quando vejo…já estou soltando a tentativa de piada, pedindo dois exemplares do produto que está em falta, ou perguntando pelo troco, antes de ter feito o pagamento. É uma irresistível compulsão.

Na semana passada, no Garça, eu me superei. Estava comprando ingredientes para o bolo do meu aniversário. Comecei repetindo que era estranho o fato do dia 22 de outubro ainda não ser feriado (esse cruzamento de megalomania com tentativa de fazer humor já deve ter torrado a paciência de muita gente…). Pedi, então, meio quilo de nozes. O balconista me serviu as nozes e perguntou se eu queria mais alguma coisa. Respondi, então, achando-me inspirado:

– Eu também quero um quilo de “vozes” e trezentos gramas de “eles”.

Não dá vontade de matar?




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em outubro de 2010.

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Baú do Odair

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