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ESMOLA DEMAIS…

        Parodiando o Guilherme, um escritor inglês que promete, há mais mistérios em vinte metros à nossa volta, do que possa imaginar a nossa vã curiosidade.
        São muitos os absurdos que nos rodeiam. Basta assistirmos a um desses programas de culinária turística, para depararmos com pessoas comendo olhos de macaco, língua de lagartixa, testículos de marmota.
        O campo da sexualidade, então, guarda coisas tenebrosas (pelo menos tenebrosas para mim). É o caso da necrofilia, em que o prazer é obtido com o relacionamento (relacionamento!?) com pessoas mortas. E o que dizer da coprofilia, em que o prazer é obtido mediante o contato com as fezes do(a) parceiro(a) – vivo(a), presumo.
        Até respeito quem gosta de cocô, bem como quem gosta de colocar mussarela em todos os tipos de pizza, mas, como diria a lixeira da minha casa: tô fora!
        Mas foi assim: numa manhã de sábado, pagava minhas compras no caixa da padaria, quando lá apareceu o Nestor. Fazia tempo que não o via. Era pessoa que tinha uma única característica: mesquinharia. Nunca conheci alguém tão pão-duro. Certa vez, por exemplo, fomos juntos para São Paulo. Pois o Nestor não tentou me convencer a pagar a ele metade da gasolina gasta na viagem? Nada de errado com isso, não fosse um pequeno detalhe: não abastecemos o carro durante a viagem (o tanque já estava cheio)…o tanque do meu carro…
Cumprimentamo-nos, e ele foi dizendo à moça do caixa que ela lhe dera troco a mais. Entregou a ela uma moeda de cinquenta centavos, despediu-se, foi embora.
        Na semana seguinte, em outros estabelecimentos, vi aquela mesma cena se repetindo, com o Nestor devolvendo alguma moeda ao funcionário do caixa. Comecei a ficar intrigado com aquilo.
        Dias atrás, no outro canto da cidade, vejo mais uma repetição daquele ritual.
        O Nestor pode ser mesquinho, mas burro não é. Com certeza percebeu que eu estava curioso com sua atitude. Convidou-me para acompanhá-lo até um banco na praça em frente. Conferiu se não havia ninguém por perto, então falou:
        – Odair, nós andamos meio afastados ultimamente, mas somos amigos, certo?
        – É claro, Nestor.
        – Eu percebi que você está achando meio estranho que eu, tantas vezes, em tantos estabelecimentos, venha devolvendo troco recebido a mais.
        – É…isso me parece um pouco estranho…
        – Você também sabe que sou conhecido por ser um pouco econômico.
        – Mais ou menos…
        – Confesso que isso não me incomoda. Há dois anos, porém, aconteceu algo que me abriu para um outro lado da existência.
        – Como assim?
        – Recebi um real a mais de troco. Pensei em guardar aquela moeda comigo, mas…não sei explicar o motivo…acabei devolvendo-a. Foram muitos os agradecimentos. Aquilo me deu verdadeiro prazer. Daí para a frente, passei a fingir ter recebido troco a mais, só para devolver uma moedinha e receber as homenagens. Com poucos centavos, eu conseguia um enorme prazer. Não gasto nem dez reais mensais com isso! Para não chamar a atenção, preferi realizar minhas ações nas cidades vizinhas.
        – Interessante… E agora, acabou vindo praticar aqui.
        – Eu já estava ficando meio manjado. Ir para cidades mais distantes geraria uma despesa muito grande…então, pelo menos por enquanto, vou ficar por aqui. Odair, por favor, você vai manter segredo sobre essa minha mania, não vai?
        – Pode ficar tranquilo, Nestor. Eu até acho isso meio maluco, mas é bem mais inofensivo do que muitas outras coisas.
        Nós nos despedimos com um abraço. Quando já estava no outro lado da rua, o Nestor bateu em minhas costas:
        – Você não deixou cair esta moeda?




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em fevereiro de 2013.

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Baú do Odair

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