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EU SOU NORMAL

        Na semana passada, eu escrevi sobre o Nestor, que ficou viciado em fingir ter recebido troco a mais. Na introdução desse artigo, eu havia feito menção ao fato de haver muitas esquisitices à nossa volta. Eu nem imaginava, porém, como a quantidade delas é grande…
        Tudo bem, eu assumo: já tive e ainda tenho algumas esquisitices. Quando criança, por exemplo, como já externei aqui, eu gostava de comer tijolo. Hummm…como era gostoso saborear um tijolo, de preferência um recém-fabricado. Também adorava cheirar fumaça de caminhão. Mas eu cresci e – hoje – já não cultivo esses gostos (se bem que, quando passo por uma construção, sempre me lembro do sabor de um bom tijolo…). Há pessoas, porém, que nunca largam seus vícios…e que vícios…
        Foi na segunda-feira. O J. (ele me pediu para manter seu nome em segredo) apareceu na Satélite da Rua da Praia. Larguei meu café, cumprimentei-o, ele se sentou na minha mesa. Lembramo-nos do churrasco do mês passado, na sua casa, quando ele estava muito triste pela morte do R., seu cachorro (por coerência, vou omitir, também, o nome do cachorro)
        Conversa vai, conversa vem, conversa foi, conversa veio. Ele até me disse que, domingo, às duas da tarde, iria estar sintonizado em www.XXXXXX(1) para ouvir meu programa ao vivo (um pouquinho de propaganda não faz mal a ninguém…).
        De repente, ele mudou o tom de voz. Tossiu, penteou o cabelo, conferiu as unhas, tossiu de novo. Então, perguntou-me se eu poderia dar uma passada na sua casa. Concordei. Fomos para lá.
        Já na sua casa, depois de servir uns salgadinhos, o J. disse que havia lido meu texto sobre o Nestor e que ficara preocupado sobre uma pequena e inofensiva mania sua (mania dele, J.). Ele precisava que eu dissesse se a sua mania era ou não alguma loucura.
        Eu peguei mais uma coxinha e o segui. Fomos, então, para um quarto onde eu nunca entrara. O J. abriu a porta: contei oito freezers verticais. Comecei a ter medo: será que o J. era um matador em série, guardando ali os corpos de suas vitimas?
        Ele abriu um dos freezers. Puxou uma das gavetas e apontou para algo que lá estava. Era um aparente pedaço de carne embalado em filme plástico. Perguntei o que era aquilo.
        Em resumo: o J. colecionava lembranças dos dias mais marcantes da sua vida. Por exemplo: como ele achara que eu fora um bom amigo, naquele churrasco, consolando-o pela morte do R., pegou discretamente um pedaço da costela que estava em meu prato e levou-a para o seu quarto de souvenires. Havia de tudo lá: um pedaço do bombom que sua última namorada comera, no dia do primeiro beijo; o copo com o resto do vinho com o qual brindara seu último aniversário; o lenço de papel no qual sua penúltima namorada limpara os lábios, antes do primeiro beijo.
        Eu falei que aquilo tudo era normal, que não tinha nada de mais, e já emendei com minha despedida (“Preciso preparar o programa de domingo!”). Por cautela, engoli de uma vez a coxinha que segurava na mão. Fui embora.
        Logo na esquina, passei por uma construção. Olhei para o monte de tijolos novos e fiquei pensativo…
– x – x – x – x – x
P.S.: Neste domingo, faça como o J.! Não, não estou dizendo para guardar restos de momentos marcantes. Estou falando para não perder meu programa de rádio AO VIVO, às duas da tarde, em www.XXXXXX(1)




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em março de 2013.

(1) – Endereço de Internet omitido, tendo em vista não possuir mais tal domínio.

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