Nenhum comentário

Falta Sangue nas Veias.

Platina, urânio, nada disso é tão raro como alguém que diga: errei. Por outro lado, nem o ar é tão abundante como as vítimas.

Vejo, no meu dia-a-dia, que todos estão plenamente certos.  Todos acham que agiram da maneira mais correta possível.  Todos estão convictos de que – se houve algum erro – este foi dos outros.

Constato, igualmente, que todos são vítimas, coitadinhos, fracos, oprimidos.

Quanto ao “estar sempre certo”, eu sempre percebi isso no trânsito.  O pedestre não respeita o semáforo…mas está certo.  O ciclista trafega pela contramão…mas está certo.  O caminhoneiro estaciona em qualquer lugar, a fim de descarregar sua carga…mas está certo (“está trabalhando”, costuma dizer, como se isso lhe desse o direito de ignorar as leis).

Esse fenômeno está em todo lugar.  Nas brigas de casal, o marido acha que está certo, enquanto a mulher tem certeza de que ela está com a razão.  O dito “cidadão de bem” não registra sua empregada, leva consigo o troco que recebeu a mais, contudo se acha capaz de falar mal de políticos, mal dos outros…

E o que dizer dessa verdadeira mania nacional, a de se passar por vítima?  Uma mulher tenta receber um pecúlio para o qual nunca recolheu nem meio centavo, descobre que é uma arapuca e faz cara de vítima: mas se ela nunca contratou um pecúlio, como queria receber o benefício?

Estou cansado disso tudo.  Isso tudo me dá verdadeira náusea.

O Mundo (o Brasil, em especial) está transformando-se numa civilização de pessoas que se acham sempre com a razão, pessoas que sempre se acham vítimas.  Nesse absurdo teatro do politicamente correto, surgem ONGs, cotas, resgate disto, compensação daquilo, movimentos em defesa de qualquer coisa.

Na verdade, porém, grande parte disso tudo se resume à esperteza, ao cinismo que busca a obtenção de vantagens.

As pessoas estão trocando a antiga Honra pela globalizada vantagem.

É um triste cenário de um triste teatro.

Mas a sociedade continua a bater palmas…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em outubro de 2009.

Talvez você também goste!
Baú do Odair

Publicações similares

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.
Menu