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FELIZ AMO NOVO!

O título acima não está com erro de grafia, não.

Quando desejamos um “feliz ano novo”, estamos assumindo – é claro – a existência de um “ano velho”. Mais do que isso, estamos fugindo de um passado imperfeito e caminhando em direção a um futuro maravilhoso. Essa fuga é um pêndulo: num dos seus extremos está o que já foi, com a saudade ou o arrependimento gerados; no outro, a ansiedade pelo porvir. Nesse movimento pendular nunca estamos onde deveríamos estar, ou seja: no agora. Toda essa problemática tem um nome: tempo.

Na ceia deste Natal, sem apelar para religião, espiritualidade ou qualquer tema sobrenatural, tive uma experiência verdadeiramente espiritual e religiosa, que ultrapassou a aparente natureza das coisas. Senti a presença da minha Mãe, que já morreu há quase três anos. Não, não vi seu fantasma, não ouvi sua voz, não recebi seu toque. Mas senti, em mim e nos meus filhos, traços de seus gestos, ecos de seu falar, marcas de sua presença. De fato, muito da ternura de meus filhos é herança da ternura com que ela tratava os netos; muito do amor que busco dar, veio do amor que ela me dava.

Senti, também, outras presenças: a dos meus netos, bisnetos e trinetos. Eles ainda não nasceram, mas os seus gestos, seus falares, suas maneiras de ver a vida estavam ali, naquela mesa, sendo preparados por mim, por minha mulher, por meus filhos, por meus parentes e amigos. Sim, a ternura que eu demonstrar hoje para meus filhos será levada por eles aos meus netos, que a transmitirão aos meus bisnetos, e assim por diante.

Num segundo, percebi que o tempo é uma bobagem inventada por nosso pequeno ego. Só existe o agora, um ponto que, se vivido plenamente, transforma-se numa reta; uma reta que, sem as extremidades imaginadas por nós (passado e futuro), transmuta-se num plano de absoluta Paz.

Essa percepção foi real e maravilhosa. Mas há um problema: percepções são como bolhas de sabão. Logo voltamos ao pobre pêndulo do tempo… Como mudar isso de vez?

Um Mestre que foi ou odiado ou amado (o que ocorre, aliás, com todos os grandes Mestres), Gurdjieff, comparava o homem a uma carruagem. A carruagem corresponde ao corpo físico; o cavalo, aos sentimentos e desejos; o cocheiro, aos pensamentos. Na cabine da carruagem viaja o Amo, que é a pessoa que decide (ou deveria decidir) o destino a ser tomado: corresponde ao verdadeiro Eu, à Consciência.

Quase todos nós nada mais somos do que carruagens loucamente puxadas pelos cavalos. Dá para negar que somos corpos conduzidos pelos desejos?

Raras são as pessoas em que o cocheiro é quem domina as rédeas.

E raríssimas são aquelas em que o Amo dá as ordens ao cocheiro.

Só atingiremos o plano de Paz sem tempo, quando formos o Amo de nosso viver. Até lá, correremos como cavalos loucos…

Precisamos entender que nem a carruagem, nem o cavalo e nem o cocheiro deveriam ser o Amo. Só o Eu verdadeiro pode e deve ser o Amo.

Pensando bem, o título é redundante: se nosso Eu for o Amo, não haverá como ele não ser feliz…e feliz não num novo ano, mas eternamente.

Isso, porém, só pode acontecer agora.

Feliz agora!

Agora!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em dezembro de 2010.

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