HISTÓRIA NATURAL

Nascemos. Começamos a perceber que existe algo ao nosso redor. A cada momento, aumenta a percepção de que existe um cenário, de que existem atores. Sentimos que todo o cenário foi feito para nós, todas as pessoas existem para nós.

Crescemos. Começamos a perceber que o algo que existe ao nosso redor parece ser muito maior do que pensávamos que era. A cada momento, aumenta a percepção de que a quantidade de cenários é infinita, de que são tantos atores… Sentimos que o cenário existe por alguma razão que não sabemos explicar. Quanto às pessoas, parece que elas vivem para si mesmas: nós somos apenas uma parte das suas preocupações. Descobrimos que não somos tudo para nossos pais: somos apenas filhos deles. Descobrimos que existem outras pessoas que também são importantes para eles. Essas descobertas nos agridem profundamente: ocorre o primeiro desmoronamento do nosso mundo. “Primeiro”, porque não nos lembramos – pelo menos conscientemente – da nossa saída da placenta; e primeiro de muitos…

Crescemos mais. A vida vai nos obrigando a percebermos cada vez menos, a pensarmos cada vez mais. Dessa forma, vamos perdendo progressivamente a intuição com que nascemos. Antes, sentíamos tudo no corpo; agora, raciocinamos, analisamos, concluímos. Dizem para nós, então, que os cenários e os atores foram criados por um ser onipotente chamado Deus. Ou que esse Deus está em tudo e em todos. Ou que tudo veio do nada e para o nada caminha, sem nenhum maestro. Escolhemos cenários e pessoas de que mais gostamos. Passamos a julgar tudo e todos. Julgamos a nós mesmos cada vez menos; condenamos os outros cada vez mais. Conhecemos o trabalho, que consiste em freqüentarmos alguns cenários, nos quais nos relacionamos com algumas pessoas, recebendo, depois de um mês, algum dinheiro para podermos nos manter como pessoas vivas em alguns cenários.

Alguns de nós nos reproduzimos. Como gota d’água rumo à cachoeira, entramos nas paixões, às vezes chamando uma delas de Amor. Num desses encontros com pessoas, em certos cenários, nós nos reproduzimos. Para nós, nossos filhos são tudo, mas também temos pais, cônjuge, amigos, inimigos.

Envelhecemos. Nossos filhos crescem, crescem mais, reproduzem-se. Tentamos fazer com nossos netos as coisas que gostaríamos de ter feito com nossos filhos. Paramos de trabalhar. Ainda julgamos muito, condenando os outros. Começamos, porém, a nos condenar também, seja por não termos feito tal coisa que deveríamos ter feito; seja por termos feito aquela outra que deveríamos ter evitado.

Envelhecemos mais. Surgem duas bifurcações básicas:

1 – Para fugirmos da dor da auto-condenação, abandonamos a realidade: passamos a querer ser crianças ou jovens. No primeiro caso, como crianças birrentas, nós nos transformamos num poço transbordante de ressentimento, sendo rabujentos, irritantes, extremamente egoístas. No segundo caso, também para fugirmos da realidade, passamos a viver como se jovens fôssemos, mas essa juventude não pode passar de uma fina casca, verdadeiramente caricatural, oca.

2 – Podemos, também, aceitar o envelhecimento, os erros, os acertos, o tempo, as pessoas, os cenários. Quando optamos por tal caminho, voltamos a perceber cada vez mais, passando a raciocinar cada vez menos. Percebemos, então, que não tem importância nenhuma saber se existe ou não um criador, se houve ganho ou perda, se vencemos ou perdemos.

Quando entramos pelo caminho número 1, constatamos, mais cedo ou mais tarde, que sempre estivemos mortos.

Quando escolhemos o caminho número 2, a todo instante nascemos, crescemos e envelhecemos de novo. Sabemos que todos os cenários e todas as pessoas existem para nós. Sentimos o pulsar de toda a Vida no bater do nosso coração. Nossa sensação de Vida não diminui nem mesmo diante da morte próxima.

A ordem dos parágrafos acima não altera o produto de nosso caminhar.




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em março de 2011.

Talvez você também goste!
Baú do Odair

Publicações similares

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.
Menu