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Injustiça

Às vezes minha mulher me chama de chato.  Por que será?  Eu tento sempre ser o mais razoável possível nos relacionamentos.  Tenho uma capacidade infinita de compreender, de perdoar, de aceitar os defeitos dos outros.  E ela me chama de chato?

Quer um exemplo de como sou paciente com a Humanidade?

Quantas vezes, nas filas dos balcões de frios de supermercados, eu ouvi as pessoas pedirem:

  • Um quilo de muzzarela!
  • Trezentos gramas de mortadela!
  • Meio quilo de presunto, por favor!

É claro que, a cada pedido desse tipo, minha irritação vai aumentando: como essas pessoas podem pedir – pura e simplesmente – muzzarela, mortadela, presunto?  Na minha vez, é claro que interrogo a atendente sobre a marca do queijo ou do presunto, sua data de validade, a localização do fabricante, etc.  Dou, então, orientações precisas sobre a espessura da fatia (extremamente fina, é claro!), chegando, por vezes, a fazer comentários sobre a marca do produto.

Nunca cheguei, porém, para algum cliente, e perguntei: como você pode pedir presunto sem especificar a marca???  Já tive vontade de fazer isso, é claro, mas sempre me contive.  E o que dizer das pessoas que, em bares e restaurantes, pedem “um refrigerante”?!  É a sociedade do “tanto faz”, do “qualquer um”.  Mas eu fico quieto.  E, mesmo assim, sou chamado de chato…

Já que toquei nesse assunto, sinto que minha mulher não agüenta mais minhas reclamações sobre o que já passei a denominar “o caso da avelã”.

De fato, todos os dias, pela manhã, eu como uma castanha do Pará, uma noz, três amêndoas, três avelãs e quatro castanhas de caju.  Aliás, comia: há dois meses as avelãs desapareceram das prateleiras.  Procurei avelã em todo lugar, sem resultado positivo.  Se eu fosse um pouco mais paranóico, diria que as avelãs sumiram do planeta, em meio a alguma conspiração que não sei explicar.

Sou tão aberto a mudanças, que tentei substituir as avelãs por amendoins (três, também).  Confesso, porém, que sinto falta daquelas bolinhas desejadas por dez entre dez esquilos…  Posso até manter os amendoins em meu café da manhã, como uma verdadeira inovação deste ano de 2010.  Mas quero as avelãs de volta!

Já reclamei nos supermercados, já mandei emails para várias empresas, já quase mandei confeccionar camisetas com os dizeres “ONDE ESTÃO AS AVELÃS?”.  Mas até agora…nada…

E ficam insinuando que sou chato, só porque busco recuperar o meu direito de comer três avelãs por dia.  Que culpa tenho eu da Humanidade comer avelãs só durante o natal?  Enquanto as pessoas, nessa época, devoram montanhas de avelãs, eu como apenas três por dia..todo dia…no mesmo horário.  Só três…  Não são duas, nem quatro, muito menos cinco: apenas três!

Você acha que sou chato?

P.S.: Viu alguma avelã por aí?




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em abril de 2010.

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Baú do Odair

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