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“Já não haverá mais tempo!” (Apocalipse, 10,6)

Já escrevi muitas vezes sobre a necessidade de vivermos conscientemente, o que só pode ocorrer no agora.  Por mais que eu tivesse convicção disso, por mais que eu tivesse lido sobre isso em vários livros de vários mestres, por mais que tivesse vivido experiências de plenitude em minhas caminhadas, ao tomar banho, ao tomar sopa, ao acordar, ainda faltava algo…
Quando friso o agora, estou automaticamente estabelecendo os estados que se opõem a ele: o passado e o futuro.  Em outras palavras: ao falar do agora, estou, na verdade, falando do tempo.  Todo o problema se resume a isto: o tempo.
Não se pode transmitir a sensação que é andar de bicicleta numa manhã de verão.  A única maneira de sentirmos isso é andando de bicicleta numa manhã de verão.  Assim, também, falar que o tempo é uma doença criada pela mente é fácil; vivenciar que o tempo não passa de uma doença criada pela mente, porém…
Li sobre o tempo em livros de Física, de Filosofia e de diversas tradições religiosas.  Bebi muitas noções sobre o tempo no Yoga, no Tantra, no Zen, mas um trecho ficou especialmente gravado em meu cérebro, de autoria do Padre católico norte-americano Thomas Keating: “quando há muitos pensamentos, a oração parece longa” (“Intimidade com Deus”, 3ª edição, Paulus, pg. 125).
É claro que sei que todos comentam que o tempo passa mais devagar na cadeira do dentista do que numa circunstância agradável.  Mas o que Keating havia resumido, e de maneira magistral, era isto: o tempo é sinônimo de mente.
As palavras eram profundas, mas tudo não passava disso: palavras.
Até que, semanas atrás, choveu…
Como não pude sair para caminhar pela rua, fui para a esteira.  Como sempre procuro meditar enquanto caminho, escolhi uma meditação na qual eu buscava perceber todas as sensações do meu corpo.  Senti minhas costas roçando na camiseta, os atritos de cada face de cada um dos meus pés na meia, o caminho das gotas de suor que nasciam na minha testa.  De forma natural, não pensei em nada, só sentia as mil nuances do meu corpo.  Depois de (pensei) cerca de cinco minutos, olhei para o relógio e me surpreendi: eu estava caminhando havia quarenta minutos!
No dia seguinte, também choveu.  Nesse dia, realizei outras práticas.  Enquanto caminhava, fixei meu olhar num ponto localizado na parede que estava a minha frente.  Passei, então, a contar de forma decrescente, começando em mil e indo até um.  Mesmo assim, pensei em comentar com minha mulher que estava fazendo duas meditações ao mesmo tempo, na esteira.  Pensei que não deveria estar pensando nisso.  Pensei em um acidente que poderia acontecer com uma pessoa amada.  Pensei em comentar esse pensamento com minha mulher.  Com a certeza de que já havia andado por cinquenta minutos, olhei para o relógio e tive nova surpresa: havia começado a caminhar menos de quinze minutos antes!
Esse foi o meu passeio de bicicleta…  Não se tratava de um livro, de uma idéia, de palavras: eu sentira que o tempo é sinônimo de mente; que quanto menos pensamentos, menor é a sensação de lapso temporal.
Não era teoria, mas a convicção plena de que toda a angústia vital é criada pelo tempo, que é criado pela mente, que é alimentada por nosso incessante pensar.  Conheci, então, plenamente, a única possibilidade de Paz: viver o agora…agora!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em outubro de 2009.

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