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LIBERDADE: COMO PRATICAR

Nesta semana, foi notícia uma eventual mudança de posição do Papa (e, em conseqüência, da Igreja Católica) em relação ao uso de preservativos. Sem entrar no mérito se, de fato, houve ou não uma mudança efetiva no posicionamento da Igreja, a verdade é que ela chega a ser acusada de responsável pela infestação da AIDS no mundo, em razão de sua posição contrária ao uso de “camisinha”.

Antes de prosseguir, preciso esclarecer que nasci e cresci em família católica; além disso, eu e minha mulher criamos nossos filhos nessa religião. Também tive experiências com o Espiritismo. De alguns anos para cá, defino-me como um buscador, não mais estando vinculado a nenhuma religião institucionalizada, o que me deixa muito à vontade para discordar das críticas que estão sendo (e sempre foram) feitas à Igreja Católica.

Em primeiro lugar, ninguém é obrigado a ser católico, ninguém é obrigado a seguir suas regras ou orientações. As pessoas podem escolher qual religião seguir; podem, aliás, escolher não seguir nenhuma religião. Podem até fundar novas religiões. Eu tenho o direito de me declarar Messias, de afirmar que li umas tábuas que desceram do céu e para lá voltaram, tábuas que informavam que eu fora o escolhido para conduzir todos à Luz. Se eu tenho esse direito, por que o os católicos não podem ser contra o uso de “camisinha”?

Um outro ponto muito importante: a posição da Igreja católica sobre o uso de preservativos não pode ser vista de forma isolada, uma vez que ela também prega a castidade, ou seja: o relacionamento sexual só deve ocorrer depois do casamento, e apenas com o cônjuge. Convenhamos: se aplicado tal preceito, camisinha para quê?

Também acusam os católicos de tentarem eleger políticos que comungam suas idéias. Mas isso não pode? Por acaso é inconstitucional lutar – dentro dos limites da legalidade – para ter representatividade política?

Nessa confusão de conceitos sobre o que é (ou deveria ser) tolerância, chegam a mencionar os trágicos índices da AIDS em Zimbabwe, como que fazendo uma ligação desse caos com a posição da Igreja Católica, cujos fiéis constituem pouco mais de 10% da população daquele país.

Liberdade: bela palavra, mas de difícil aplicação, principalmente quando estamos diante da Liberdade dos outros. Quem não quer ser católico, que não seja. Quem quer ignorar o Papa, que ignore. Quem não quer votar em políticos católicos, que não vote. Mas vamos parar com essa intolerância travestida de algo politicamente correto.

A AIDS é um problema gravíssimo, que exige medidas emergenciais e efetivas por parte dos poderes públicos de todos os países do mundo.

Mas a intolerância também é uma grave doença, que já causou milhões e milhões de mortes.




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em novembro de 2010.

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Baú do Odair

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