Nenhum comentário

MANUAL DE INSTRUÇÕES

A vida nos faz tão sérios, tão ocupados…
Na minha adolescência, quando eu e um grande amigo ficávamos sem assunto, quando o
tédio ameaçava instalar-se, tínhamos um método infalível – embora nada “sério” – de melhorar a
situação. Começávamos a dar risada forçada. Eu começava com um “ah”, ele respondia com “ah,
ah”; eu devolvia um “ah, ah, ah”, e ele rebatia “ah, ah, ah, ah”.
Resumindo: em cerca um minuto, já estávamos em plena gargalhada, segurando a barriga de
tanto rir, derramando lágrimas, com receio de não conseguirmos parar aquela verdadeira palhaçada.
Sim, aquilo era uma palhaçada; talvez até fosse uma infantilidade, uma prova do quanto
ainda éramos imaturos, mas tinha duas qualidades muito importantes, que ultrapassavam o mero
contágio do riso: era simples e verdadeiro. A simplicidade e a verdade são os maiores remédios
para os males do nosso tempo (e também para a mania de tentarmos – geralmente da forma errada –
acabar com esses males). Prova disso é que, depois de conseguirmos parar de rir, ficava a sensação
de que tudo estava bem.
Cresci, deixando essa alegre palhaçada para trás. Precisei ficar sério, precisei ficar ocupado.
Hoje, com 49 anos, quando não estou ocupado, procuro ler e escrever sobre a necessidade de
vivermos o agora. Dias atrás, porém, saí da teoria e ingressei na prática.
Estava em casa com meu cunhado, minha cunhada, dois sobrinhos (com cerca de dez anos) e
minha filha mais nova. Em dado momento, tive um estalo e sugeri o “método” da risada: dali a
pouco, todos nos contorcíamos de tanto rir.
Fomos, então, para um supermercado. Em outro estalo, sugeri que terminássemos cada frase
com “câmbio”. Seguimos à risca o combinado:

  • “Banana prata ou nanica? Câmbio.”
  • “Eu gosto mais da prata. Câmbio.”
    Para não exagerar, eu deixei de usar “câmbio” ao conversar com a moça do caixa. Mas
    aproveitei o local para fazer mais uma molecagem: comentei alto com minha cunhada, para que
    todos da fila ouvissem, uma inverdade sobre um personagem da novela do momento:
  • “Você viu que o Totó vai voltar como drag queen?”
    Chamava a atenção o ar de espanto e de ansiedade das pessoas para conferirem se era
    verdadeira aquela “notícia” de última hora. Para acalmar os nervos, desmenti de pronto o que
    dissera.
    Se tudo isso foi uma palhaçada, eu não sei. Só sei que gerou Paz, tanto na hora, como
    depois.
    De fato, às vezes, para que possamos viver plenamente o agora, precisamos deixar de ser tão
    sérios, tão ocupados.
    Precisamos deixar a teoria de lado e praticar a simplicidade do sorriso de uma criança,
    praticar a sinceridade do olhar de um amigo.
    O nome disso é viver.
    “Câmbio”.



Texto originalmente publicado no “Imprensa Livre”, em janeiro de 2011.

Talvez você também goste!
Baú do Odair

Publicações similares

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.
Menu