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MORAL DA HISTÓRIA

Que eu saiba, todos os órgãos de imprensa estão descendo o malho no Irã, em razão da condenação à morte de Sakineh Mohammadi Ashtiani, inicialmente por apedrejamento, depois alterada para enforcamento. Teria ela praticado adultério, bem como teria participado do assassínio de seu marido.
Por outro lado, na noite do último dia 23 de setembro, na Virgínia, Estados Unidos, foi executada, por meio de injeção letal, Teresa Lewis, de 43 anos, também acusada de participar da morte do marido. Vale frisar que Teresa registrava quociente intelectual próximo ao de uma pessoa com deficiência mental. Mesmo assim, porém, ela foi executada. E – mesmo assim – a imprensa ficou quieta (quando muito, simplesmente deu uma pequena nota sobre o assunto, muito longe do estardalhaço feito em torno da execução de Sakineh).
Em primeiro lugar, quero deixar claro que sou contra que se mate um ser humano…sempre. Não vejo diferença entre a barbárie de um homicídio praticado por um psicopata e as mortes causadas por soldados norte-americanos no Iraque, por exemplo.
A morte deliberada de um ser humano é sempre algo horrível, não dependendo de onde ocorra, da quantidade de vítimas, do meio empregado, de sua justificativa numa lei ou num processo: morte é morte. Com base nesse raciocínio, entendo que tanto Alexandre, O Grande, como Bush, são monstros. O mesmo pode ser dito sobre Hitler e Ariel Sharon.
Nossa imprensa, porém, elege os mocinhos e os bandidos. Quando os Estados Unidos matam no Afeganistão ou no Iraque, tudo é visto como um “videogame”. Quando uma mulher afegã, a cientista Aafia Siddiqui, revolta-se contra o invasor ianque, em sua terra, e é condenada a 86 anos de prisão pelo “Tio Sam”, todos ficam indiferentes, como se a “Justiça” tivesse sido feita.
Os Estados Unidos e seus aliados são tratados como mocinhos pela nossa imprensa. Já os muçulmanos são vistos como atrasados, déspotas, incultos.
O que muitos esquecem (ou nunca souberam) é que enquanto os ancestrais europeus dos norte-americanos ainda saíam da barbárie, a Civilização Islâmica atingia níveis altíssimos na Ciência e nas Artes.
O desconhecimento da grandeza das civilizações orientais é comum no Ocidente. A Índia, por exemplo, milhares de anos atrás, tinha uma Cultura deslumbrante, enquanto os europeus mal começavam a aprender a agricultura…
Não sou a favor da morte de Sakineh, mas também não era a favor da execução de Teresa. Sou, porém, obrigado a respeitar as leis e as tradições dos Estados Unidos e do Irã – por mais que possa discordar delas.
O grande mal do Ocidente é que pensamos que a Civilização consiste em se poder comprar um telefone celular com mil funções. Civilização é muito…muito mais do que isso.
Para terminar, a História ensina algumas coisas… Ninguém é 100% bandido ou 100% mocinho. Tudo é relativo, tudo é cinza, tudo muda. Mentira é a versão de quem perdeu, enquanto verdade é o que diz quem venceu. Terrorista é o que perdeu a batalha (ou ainda não a venceu), enquanto herói é o terrorista que lutou do lado que ganhou a guerra.
É triste, mas a moral da História é esta: a História não tem Moral.




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em novembro de 2011.

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