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No meio do caminho…

Há um ensinamento Zen que prega que, antes da Iluminação, as montanhas são montanhas, e os rios são rios; durante o caminhar rumo à Luz, as montanhas deixam de ser montanhas, e os rios deixam de ser rios; já depois da Iluminação, as montanhas voltam a ser montanhas, e os rios voltam a ser rios.

Em Efésios, 4, 9, Paulo nos diz que Jesus, antes de subir aos céus ressuscitado, descera às partes mais baixas da Terra.

Nas escrituras judaicas, por sua vez, temos a história de Jonas, que passou três dias dentro da barriga de um grande peixe, purificando-se de seus erros.

São muitas as histórias similares em outras tradições religiosas. O conceito, porém, é um só: entre escuridão e a Luz, entre o sono e o despertar, entre a Matrix e o Mundo Real, entre a mentira e a Verdade, entre o ego e o Eu, existe um caminho a ser trilhado. Quem se atreve a trilhar esse caminho, porém, antes de alcançar seu destino, passa por trechos tenebrosos…visita os infernos…

Alguns mestres chegam a advertir que a busca espiritual pode conduzir à loucura – e não se trata de uma metáfora (por mais que loucos já sejam quase todos os que respiram). Esses mestres, aliás, insinuam que muitos dos que são aprisionados sob a sentença de serem loucos nada mais são do que buscadores espirituais que, no meio da trilha, perderam-se sob golpes de ventos lancinantes, naufragaram em meio a ondas furiosas.

É por isso que são tão raras as pessoas que alcançam a Luz. Em primeiro lugar, a Humanidade já não tem muito interesse em sair de seu sono falsamente aconchegante, preferindo saltitar com seu ridículo ego pelas passarelas da vaidade tristemente oca. Depois, aquele um em dez milhões que decide despertar descobre, no meio do caminho escuro, que os precipícios são muito piores do que ele imaginava. A quase totalidade desses buscadores, então, desiste do caminho, voltando à vidinha de antes. Alguns enlouquecem.

Uns poucos…poquíssimos continuam na trilha.

Esse é o único problema que existe: a quase totalidade da Humanidade só quer ser rica, charmosa, poderosa, imortal, vivendo no sono permanente de seus egos. Alguns até vão para alguma religião, alguma seita, algum templo, obedecendo alguns livros, alguns homens, alguns rituais, mas simplesmente usam religião como uma droga alucinógena, calmante, reconfortadora. Uns poucos, então, ingressam no caminho para o despertar do Eu, mas esse caminho assusta, enlouquece, cansa…

Todos queremos fazer os milagres que Jesus fazia, mas enfrentar a cruz…

Todos ficamos embevecidos com Francisco de Assis, diante da conversa dele com os animais, mas não chamaríamos de irmão um fogo que queimasse nossos olhos.

A vida material é uma piada, mas as pessoas continuam a levá-la muito a sério.

Enquanto o ego não der espaço para o Eu, nada pode ser feito.

A babaquice do ego reina neste mundinho da matéria.

A Matrix é aconchegante…

Quem está no meio do Caminho não consegue mais agir como antes. Sua conversa, seu interesse, sua visão passam a ser muito diferentes dos que tinha em seu velho mundo. Como, porém, ainda não chegou à outra margem (onde sua fala poderia ser entendida), esse peregrino não tem com quem conversar; esse silêncio de morte pode levá-lo à loucura… Ele destruiu o seu mundo anterior, mas ainda não alcançou a Terra Prometida. É um momento de singular sofrimento: as montanhas não são mais montanhas; os rios não são mais rios.

No meio do Caminho havia uma parede, havia penhascos, havia um tsunami…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em fevereiro de 2010.

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