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NUM PISCAR DE OLHOS

Ainda hoje de manhã, eu estava limpando, com o lenço, o nariz da minha filha mais velha, com dois anos de idade.  As pequenas gotas que escorriam em direção ao seu lábio superior refletiam o sol do Litoral Norte.  Era uma cena de filme…

À tarde, confesso que senti muito orgulho, quando os professores a elogiaram na reunião da escola.  Até agora não sai da minha cabeça o que o Professor Normando disse sobre sua ótima aluna de Geografia.

Já era quase noite, quando nós saímos para estrear a sua carteira de habilitação.  “Não cai tanto para a direita, Gabriela!  Cuidado!  Isso!”

E não é que, um minuto atrás, a minha filha foi pedida em casamento?

Confesso que perdi o chão.  Confesso que perdi toda a crença que eu tinha no tempo.  Não, eu não acredito mais no tempo.  Hoje vou jogar fora todos os relógios, as folhinhas, agendas, ampulhetas.  Não é possível que aquela menininha, com seu rosto meio perdido entre uma floresta de cachos, esteja realizando preparativos para seu casamento.  Eu não acredito que aquele toco em forma de gente, com seu nariz escorrendo, vai sair para criar sua própria família.

Eu sei que não adianta ficar com raiva do tempo.  Ela não precisa mais que eu limpe o seu nariz.  Ela já terminou a faculdade…não há mais reuniões de pais e mestres para ir.  Ela dirige muito bem seu automóvel…não precisa mais de mim como instrutor.

O tempo não anda, não passa, não voa.  O tempo pisca.  Pisquei os olhos, e mais de vinte anos se passaram.

Eu sei que parece que eu estou exagerando, mas não é nada disso, não.  Eu sinto – realmente, de verdade – como se tivesse sido hoje pela manhã a última vez em que coloquei a Gabriela num banco alto da Satélite, na Rua da Praia, enquanto eu tomava café.  Um olho na xícara, o outro sempre conferindo se ela não corria risco de cair.  Não estou exagerando: isso foi hoje de manhã!!!

O rapaz que vai me chamar de sogro é uma pessoa muito boa, mas…não dava para esperar mais uns anos?  Uns cinco, dez, quem sabe vinte anos?

Mas o nome disso tudo é Vida.

Só posso desejar a mais completa Vida para os noivos.

Mas não se esqueça de que eu vou estar sempre ao seu lado, Gabriela, e não apenas para secar seu nariz.

Eu repito: ainda hoje de manhã, eu estava limpando…




Texto publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em janeiro de 2011.

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Baú do Odair

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