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Algumas pessoas duvidaram de mim, quando fiz comentários sobre um certo queijo, em texto aqui publicado semanas atrás. Esse queijo traz, em sua embalagem, a inscrição “queijo esférico”. Acontece que ele é um grande cubo, nada tendo que eventualmente pudesse lembrar algo esférico. Diante da     incredulidade dessas pessoas, organizei verdadeiras excursões à seção de frios de certo supermercado, mostrando a elas a prova do crime contra a Lógica.

O denominado “caso do queijo esférico-cúbico” foi apenas um exemplo dos fenômenos que ocorrem nos supermercados, os quais são verdadeiros microcosmos, reproduzindo entre suas gôndolas todos as conquistas, grandezas e mazelas da Humanidade. O estoque de produtos desses estabelecimentos é limitado; já o das curiosidades esperando para serem descobertas é sem fim…

Quer mais um exemplo de falta de lógica? Um determinado biscoito apresenta na embalagem a inscrição: “o original”. Até aí, tudo bem. O problema está na outra inscrição, imediatamente abaixo da primeira: “nova fórmula”. Como o produto pode ser original e, ao mesmo tempo, possuir nova fórmula? Como diria certa personagem de novela exibida muito anos atrás: mistério…

Ainda no campo da (i)lógica, o que dizer dos pesos de alguns produtos? Por que sabão em pó em sacos de 1,6 quilos? Por que tabletes de chocolate com 140 gramas? A maior falta de lógica, porém, não está nesses pesos estapafúrdios, mas nas explicações que às vezes os fabricantes apresentam para justificá-los.

Mas deixemos de lado a Lógica (ou a falta dela). Vamos para o corredor da Psicologia. Quem nunca sentiu instintos verdadeiramente assassinos, diante daquelas crianças correndo em todas as direções, berrando, pulando, saltando, urrando? Não, não digo que a vontade de matar se dirija contra essas crianças, mas sim contra seus pais, que fingem que nem as conhecem. E enquanto esses pais fazem cara de “não é comigo”, as “criancinhas” continuam a correr, berrar, pular, saltar, urrar.

Já estamos no corredor do Direito. Sou (quase) totalmente contrário à pena de morte. Digo “quase”, porque alguns casos mereceriam a pena capital, com certeza. O primeiro deles consiste em entrar na fila para dez produtos, trazendo consigo mais do que esse número de itens. Um outro caso que mereceria a pena de morte ocorre quando o pai fica numa fila, a mãe na outra, cada filho em uma fila diferente, cada qual com um carrinho. Quando um dos membros da família alcança o caixa, todos os outros se juntam a ele, com seus carrinhos. O resultado: a quantidade de carrinhos a sua frente salta de um para cinco ou seis. Pensando bem, esse delito deveria ser punido duas vezes com a morte.

Os exemplos dados acima de (falta de bom) comportamento nas filas também fazem parte da seção de (falta de) cidadania. De fato, as mesmas pessoas que não sabem nem mesmo respeitar uma simples fila vivem criticando políticos e autoridades.

Como supermercado também é Literatura, conto um caso que aconteceu comigo. Estava eu na fila para dez produtos (com oito itens no carrinho, sem ninguém atrás de mim). Nesse momento, uma mulher, que trazia apenas um item na mão, pediu-me para passar na minha frente. Não alegou nenhuma emergência, simplesmente queria passar na frente, provavelmente em razão de ter apenas um produto. Eu respondi que iria atender seu pedido, mas que, na verdade, aquele era um pedido que não deveria ser feito. Ela saiu de lá imediatamente, chamando-me de grosso com seu olhar de desprezo. Com certeza ela deve falar mal dos nossos políticos…

O triste é que a vida imita os supermercados.




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em novembro de 2010.

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Baú do Odair

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