OLHANDO NOS MEUS OLHOS SEM ESPELHOS

O ensinamento de que só a Verdade liberta não é privilégio do cristianismo. Muitas tradições religiosas adotam esse princípio; muitas vezes com outras roupagens, mas sempre com igual conteúdo.

Mas o que é a Verdade? E não me refiro à pergunta de Pôncio Pilatos a Jesus. Eu falo de algo muito mais amplo…

Eu já tinha lido muito sobre a Verdade, sobre busca espiritual, sobre a necessidade de viver o agora. Minha grande aula prática, porém, aconteceu na quarta-feira de cinzas de 2008. Eu dirigia meu automóvel a cem quilômetros por hora, quando recebi a notícia da morte da minha Mãe. No carro, viajavam minha mulher e meus três filhos.

Gritei com todas as minhas forças:

  • Nããããããããããããããããããão!!!

Acalmei minha faília e continuei a dirigir por alguns quilômetros. Parei o carro numa saída de chão batido. No momento em que fiquei de pé, percebi que eu estava em uma bifurcação, na mais real, trágia e concreta bifurcação da minha vida: ou mergulhava no meu sofrimento, ou colocava minhas idéis em ordem (na ordem possível numa situação dessas, é claro), consolando minha mulher, meus filhos e, em especial, minha irmã, a qual estava sozinha na sala de espera da UTI, além de planejar como iria dar a notícia para meu Pai, com quase oitenta anos, então.

Escolhi – conscientemente – a segunda alternativa. Essa escolha foi muito dura, mas passou por dois reconhecimentos:

1 – nunca mais veria minha Mãe neste planeta;

2 – pessoas precisavam de mim.

Isso é “A Verdade”: o reconhecimento, sem censura, sem rodeios, sem floreios, do que é. A morte da minha Mãe era. A minha responsabilidade perante os meus também era.

Esse é o caminho – único caminho – para a verdadeira Liberdade. O reconhecimento do que é.

Se sou um alcoólatra, o primeiro passo a ser dado rumo à recuperação é o reconhecimento disso, sem culpa, sem medo.

Se sinto inveja de Fulano, devo reconhecer essa inveja, senti-la como se fosse um ser vivo. A seguir, poderei ou cultivar esse sentimento mais ainda, ou buscarei maneiras de matá-lo. Mas saberei, então, plenamente contra o que estarei lutando.

Se estou inventando fugas da Realidade, preciso reconhecer que estou tentando fugir da realidade. A fuga pode ser uma mudança geográfica, uma droga, uma amante idealizada, mas sempre será uma fuga. Só depois desse reconhecimento poderei agir para voltar para o chão.

Tudo começa na Verdade.

E pode (deve) começar agora.

Mas quase ninguém gosta do seu sabor…

P.S.: Reconhecer “A Verdade” não implica em nos acharmos bons, certos, santos. Quem faz isso nada mais é do que um hipócrita. Seres humanos sentem raiva, inveja, ódio; isso é normal. Quando esses sentimentos são reconhecidos em sua plenitude, eles chegam a ganhar um perfume de Luz. É como, por exemplo, meu ódio contra o Banco do Brasil, antiga Nossa Caixa: ele é verdadeiro, pleno, transbordante. Ele é tão verdadeiro, vem tão do fundo de mim, que chega a ser bonito. Um dia ele poderá morrer (assim espero), mas por hoje ele ainda está muito vivo…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em março de 2011.

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Baú do Odair

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