PALAVRAS

É impressionante como quatro palavras podem mudar tudo. Podem acabar com uma
amizade antiga, podem causar sustos de risco para cardíacos, podem esvaziar o bolso de
qualquer um.
O palco varia: pode ser uma oficina mecânica, a sala de sua casa cheia de goteiras, uma
alfaiataria. As personagens são: você e uma pessoa que você conhece há algum tempo, seu
amigo ou amigo de um amigo. O enredo é simples: você leva seu carro para consertar, ou traz
um pedreiro para avaliar as goteiras do telhado, ou pede para uma costureira fazer alguns
ajustes na sua roupa.
O ponto alto da tragédia acontece quando você pergunta o preço do serviço. Nesse
exato instante, surgem aquelas quatro fatídicas palavras:
“Depois a gente vê!”
Você insiste, mas o seu interlocutor repete aquelas palavras, às vezes acrescentando
outras: “deixa comigo!”; “não esquenta a cabeça”. E, realmente, você vai acabar deixando
com ele muito mais dinheiro do que imaginava… E sua cabeça também vai esquentar de raiva.
São muitos os exemplos de palavras perigosas. O que dizer, por exemplo, do “volto
logo”? Ou dos famosos “já tô indo” ou “tô chegando”? Na prática, não representam nada em
termos de tempo. Seus conceitos são extremamente elásticos. Conheço várias pessoas que,
mal acabaram de sair de São Paulo, conseguem dizer, com a maior cara lavada, para alguém
que telefona do Litoral Norte: “tô chegando”.
As palavras mais perigosas, porém, principalmente quando proferidas em uma
discussão entre marido e mulher, são as famosas: nunca, sempre, tudo, nada. Funcionam
como jogar gasolina sobre uma fogueira.
Nessas horas, talvez o melhor seja apelar: “vou dar uma saída e já volto”!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em fevereiro de 2013.

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Baú do Odair

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