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PERCEBO

Ser é uma coisa. Aos dezenove anos, por exemplo, em seis meses, eu passei de sessenta
para noventa quilos. Eu era gordo, muito gordo, é claro. Eu sabia disso, eu me via em espelhos,
mas – mesmo assim – eu não me sentia como um ser gordo.
Perceber é uma outra coisa. Um dia, numa estação do Metrô, eu me vi na televisão que
mostrava as imagens da plataforma. Eu percebi que era gordo. Num segundo, tudo mudou: eu
passei a me sentir como um ser muito gordo.
O nome desse instante em que tudo se transforma é percepção, nada mais sendo do que a
tomada de consciência sobre o que se é (ou se julga ser).
Algumas semanas atrás, um amigo tirou uma fotografia de mim, enviando-a para meu
correio eletrônico. É claro que sempre soube minha idade, que toda manhã me vejo no espelho.
Confesso, porém, que, até ver aquela fotografia, eu me sentia um adolescente. Dali para a frente,
porém, eu me senti velho. Em um segundo, eu envelheci décadas…
A percepção do envelhecimento me balançou. Fui invadido por uma profunda melancolia,
por uma grande frustração pelo que queria ter feito, mas não fiz; por uma enorme culpa pelo que
não queria ter feito, mas acabei fazendo.
“O tempo passa voando”. “Parece que foi ontem”. Quem nunca ouviu essas frases?
Até aquele instante em que vi a minha foto, essas eram apenas frases. Dali para a frente, eu
passei a senti-las. Elas deixaram de ser provérbios, ditados, palavras de livros de auto-ajuda: elas
passaram a ser vivas para mim.
Parece que ontem eu ainda estava no colo de minha Mãe, mas hoje ela já não respira entre
nós. Parece que ontem eu procurava abiu para minha mulher, em plena gravidez. Dias atrás, minha
filha mais velha terminou a faculdade.
O tempo passou voando!
E é verdade: o tempo passa num piscar de olhos. É muito rápido. Assim diziam para mim,
quando eu tinha meus vinte anos, mas eu nunca levei isso a sério…
Nesse estado de melancolia, comecei meu almoço de domingo, com minha mulher e meus
filhos. Então aconteceu…
É claro que eu sempre soube o quanto eles são importantes para mim. Num segundo,
porém, eu percebi como costumo me esquecer do quanto eles são importantes para mim.
Nesse instante, eu percebi que Deus deve me achar um maluco, porque fico repetindo
“venha a nós o Vosso Reino”, sem perceber que Ele já atendeu esse meu pedido.
Percebi, então, que, realmente, o tempo passa voando.
Mas todo instante, se percebido em profundidade, se vivido plenamente, pode ser eterno.
E isso não é frase de livro de auto-ajuda, não.




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em dezembro de 2009.

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