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Pode, sim!

Passei parte da minha vida não acreditando em nada.  Outra parte passei acreditando em livros, livros escritos por homens, por homens que afirmavam ter visto Deus, um Deus que só se revelava a eles.  Quanto a mim, só me restava o nada ou acreditar que aqueles homens, que escreveram aqueles livros, haviam, mesmo, visto Deus.

Confesso que nunca vi Deus, ver no sentido objetivo de ver, ver como vejo, bem agora, o teclado e o monitor que estão na minha frente.

Nunca, também, levitei, nem vi ninguém levitar.  Nunca vi duendes, anjos, objetos flutuando sem causa física aparente.  Desde que ela morreu, nunca mais vi minha Mãe.  Nunca escutei uma voz que vem não sei de onde (voz, mesmo, não imaginação de uma voz).

Em resumo: nunca tive uma prova material, indiscutível, inquestionável, estilo “São Tomé”, de que existe uma realidade além desta que percebo com meus cinco sentidos.

Mas já ouvi muitas coisas…  Que Deus está na flor que cresce, no Sol que nasce, no gozo do agora.  Isso é muito bonito, muito poético, mas pode não passar disso: um poema belo, uma beleza poética.

Ah como eu queria tropeçar numa prova, por menor que fosse, de que a morte não é o fim de tudo…

Pessoas dizem receber espíritos, ouvir e ver Deus, conversar com anjos, e eu só fico aqui no chão, um chão duro, árido, áspero, numa espiral que vai do nada para o nada.

Sim, já tive momentos – poucos – em que me senti conectado com a Natureza, com as pessoas; em que senti, como numa trilha sonora, a mensagem de que existe um Sentido maior na Vida.  Mas sempre me perguntava se esse senso de conexão não seria apenas um acidente em algumas sinapses, devido à ação de alguns hormônios.

Não sou o primeiro a perguntar: Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?

Não me queixo, porém, do deserto em que me encontro.  Talvez alguns daqueles livros estejam certos, quando afirmam que o encontro com Deus só pode acontecer nos desertos.

De fato, o misticismo do Oriente se encontra com o do Ocidente, quando se trata da concepção de que precisamos nos esvaziar do nosso ego, a fim de que Deus ocupe esse espaço.

Não podemos negar: há muitas bobagens em muitos livros.  Mas há muitas pérolas neles, também.  Algumas são valiosíssimas.

Recentemente ouvi um ensinamento Zen precioso: “não procure seguir os passos dos mestres; procure o que eles procuravam”.

Segundo muitos dos mestres que mais respeito, o Encontro com Deus parece ser algo que ocorre sem explosões, sem pompa, sem esplendor…e sem deixar provas.

Mesmo assim…como eu queria…

Tudo indica que, no fim da trilha dessa busca, chegarei a mim mesmo.  Nesse dia,  sentirei a flor que cresce, o Sol que nasce, o gozo do agora; respirarei, num poema sem versos, a plena convicção de que tudo é Amor; provarei o sabor de Deus.   

Nesse dia, constatarei que, quando se prova Deus, desaparece qualquer preocupação em provar sua existência.

Para terminar, uma notícia maravilhosamente assombrosa: esse dia pode ser hoje!

Pode, sim!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em janeiro de 2010.

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Baú do Odair

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