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Por quê? Ou: Se beber, não dirija (sua vida e a dos outros). Ou: Do tempo em que se estudava para mudar o Mundo, não o salário.

Passei minha infância e adolescência sonhando ser escritor…escritor famoso, é claro.  Aceitaria também ser cineasta, teatrólogo…sempre famoso, é óbvio.  Resumindo: sempre esperei ser um (ou melhor: “o”) intelectual.  Melhor, ainda: sempre esperei ser visto como “o” Intelectual, Intelectual famoso, revolucionário, romanticamente famoso e revolucionário. 

            90% dos sonhos, porém, terminam na fila de emprego.  E os outros 10% morrem quando o emprego é conseguido…pelo menos para 99,99% das pessoas, entre as quais estava eu.

            De fato, foi assim comigo.  Na verdade, eu não senti que meus sonhos tinham morrido, mas que apenas seriam adiados por um tempo, um pequeno tempo, durante o qual eu iria trabalhar em algo com que não sonhara, mas que poderia me dar o sustento.  No fundo, pensava em logo abrir uma empresa e ficar…milionário, ou melhor: bilionário.  Os anos foram passando, fui estacionando em meu emprego, abri alguns negócios, sendo que um depois do outro desmoronou.
            Hoje, vinte e quatro anos depois de ter concluído aquela que era e é considerada a melhor faculdade de Direito do Brasil, vejo que sou a mais exata expressão do fracasso material de um ser humano…

            Há vinte e quatro anos, eu me via (e sentia que era visto) como uma pessoa com um futuro brilhantíssimo, com um potencial sem limites.  O futuro brilhava retumbante à minha frente, com um fundo musical de êxtase.

            Hoje, eu me percebo como o último dos moicanos em termos materiais…o último.

            A maior dor de um ser humano é a amputação de sua esperança no futuro.  E essa dor é maior, ainda, quando se percebe ter sido o responsável pela própria amputação.

            Eu fui o responsável por estacionar na Vida.  Eu não quis lutar para subir, eu deixei o tempo passar.  E o tempo foi passando, passando, passando…  Os outros foram lutando, subindo, lutando, subindo…  Enquanto isso, eu permanecia parado, esperando a chegada daquele tempo maravilhoso, que sonhara vivamente, que tinha certeza absoluta de que logo chegaria.  Mas aquele tempo não veio…

            Por quê?  Por que eu não me transformei no mais famoso escritor do Mundo?  Por quê?  Será porque nem mesmo escrevi meu livro?

            Tudo isso é só para perguntar para mim, diante da busca espiritual à qual venho me dedicando há anos: eu realmente busco a Luz?  Ou apenas tento não encarar meu fracasso material?  Eu busco o brilho divino?  Ou só fujo da minha incapacidade de brilhar como homem neste Mundo?  Qual a resposta?

            Sim, isto é uma crise.  E eu estou vivendo-a com toda minha consciência, plenamente, abertamente.  Sei que a resposta não virá no futuro.  Ela só pode ser sentida no agora.

            A Vida inclui amor e ódio, prazer e dor, sucesso e fracasso, guerra e paz, tudo.

            Eu estou vivendo!  Choro, às vezes, mas as lágrimas sempre secam com o calor do Sol em meu rosto.  Até as lágrimas podem ser lindas, se forem choradas com plena Vida.

            Talvez eu pegue uma caneta e um caderno…  Ou talvez tome um chá…

            Viver!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em fevereiro de 2009.

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Baú do Odair

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