PRECISÃO

Eu estou um pouco frágil. Não sei se é porque minha mãe morreu na quarta-feira de cinzas de 2008…

Neste Carnaval, minha mulher, minha filha mais velha e meu filho foram para o sítio de minha cunhada. Eu e minha filha mais nova ficamos em São Sebastião.

Aliás, minha filha mais nova traiu o nosso bairro – o Pontal da Cruz: desfilou na Escola de Samba do Bairro (quem é daqui, quando se refere ao Bairro São Francisco, diz apenas “o Bairro”).

Agora são dez da noite da segunda de Carnaval. Estou sozinho. Minha filha saiu. Sua escola foi a campeã. Confesso que, mesmo não sendo fã de Carnaval, gostei da notícia. Que o Pontal me desculpe, mas é minha filha!

Fiz e comi duas pizzas fritas. Sozinho. São poucas calorias.

Minha mulher ligou. Perguntei sobre alguns cheques que vão cair nos próximos dias. Reclamei do Banco do Brasil. Hoje, em pleno feriado, fiquei sabendo que não tenho mais limite de cheque especial. Tirarem o limite, tudo bem; mas sem nenhum aviso? E se eu estivesse viajando e contasse com o limite? Passa pela minha cabeça uma suspeita: será que isso foi represália por eu ter escrito sobre o Rogester? Não, não posso acreditar nisso. De qualquer maneira, só por precaução, se esse foi o motivo, deixo minha pirraça no P.S. Que saudade da Nossa Caixa, do Rogester…

Eu estou um pouco frágil. Talvez seja porque minha filha mais velha vai casar daqui a alguns meses…

Daqui a pouco (quem sabe?) eu vou ligar para o meu Pai. Eu já convidei várias vezes esse homem de quase oitenta e dois anos, genuíno espanhol da Galícia, para morar em minha casa (a qual, aliás, foi ele quem me deu). Mas meu Pai, que não vem para cá desde o penúltimo natal, diz que São Sebastião fica muito longe. Então eu digo que longe fica São Paulo. Em segundos, estamos em plena discussão. Discutimos sobre isto, sobre aquilo, sobre tudo. Mas logo depois pedimos desculpas mutuamente. Acho que isso é Amor.

Tentei falar com minha irmã pelo “Skype”; onde será que ela está? É…quando minha Mãe morreu, prometi que, pelo menos uma vez por mês, iria a São Paulo visitar meu Pai e minha irmã. A última vez que fui lá…setembro?

Eu estou um pouco frágil. Talvez seja porque o meu filho está de mudança para a Capital, aquela cidade que foi fundada tão longe de São Sebastião…

O Padilha me telefonou horas atrás. Foi muito bom ouvir a voz de uma pessoa amiga. Eu acho que já escrevi sobre isto, mas antigamente eu atendia as pessoas que me perguntavam, em meus horários de folga, sobre assuntos do meu serviço, mas confesso que, embora eu as atendesse com educação, no íntimo eu não gostava daquilo. Há alguns anos, porém, quando escolhia tomates, no Supermercado Garça, e uma pessoa me perguntou sobre um assunto do meu serviço, tudo mudou. Pensei que (se eu não morresse antes) em dez, vinte, trinta anos, ninguém iria sequer olhar para mim. Logo, era um privilégio as pessoas me perguntarem coisas do meu serviço. Elas me davam a chance de poder ser útil. E isso era (e é) muito bom.

Eu estou um pouco frágil. Talvez seja porque não consigo trazer minha Mãe de volta, nem manter meus filhos comigo, nem trazer meu Pai para cá, nem ter contato mais frequente com minha irmã, muito menos parar de reclamar dos meus problemas com a minha mulher (e são tantos…tantos…). Dá vontade de gritar: eu quero a minha Vida de volta!!!

Mas eu comecei a escrever este artigo para fazer uma pergunta para a minha mulher. Sim, mesmo estando um pouco frágil, eu pergunto com força: quem lhe deu licença para ficar longe de mim?

É preciso amar…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em março de 2011.

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Baú do Odair

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