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Promessas de Ano Novo

Quando eu fumava feito chaminé, bebia e tinha quarenta quilos a mais do que tenho hoje, costumava fazer as famosas “promessas de ano novo”. Era tudo meticulosamente planejado: à meia-noite do dia trinta e um eu fumaria meu último cigarro, tomaria meu último gole, faria meu último absurdo gastronômico.

Algumas vezes isso até que dava certo por alguns dias. Quase sempre, porém, já no dia primeiro eu estava fumando, bebendo e engolindo desesperadamente o que fosse possível.

Essas insanidades persistiram por anos: tanto o fumar, o beber e o comer em excesso, como o tentar parar de fumar, de beber e de comer em excesso. Iria mais longe: o querer parar com tais vícios era mais louco do que os vícios em si. E assim passei por muitos dias trinta e um de dezembro…

Quase dois anos atrás, em um dia que não era trinta e um, nem primeiro, depois de parar de tentar largar alguns de meus vícios, eles simplesmente foram embora.

Por isso, se você fez promessas parecidas e as está cumprindo, parabéns…mas cuidado! Nunca se esqueça de que você está lutando contra algo que – ao menos para você – sempre demonstrou ser muito forte. Tome cuidado, também, para não mudar de uma doença para outra. Fumar é bem melhor do que a intolerância prepotente (existe outra?) para com os outros que ainda fumam. Tomar um porre é muito mais saudável do que o fanatismo religioso. Empanturrar-se de cupim e sorvete faz menos mal do que uma língua movida pelo ressentimento.

Se, porém, você já descumpriu as promessas que fez, não se entristeça! Isso pode ter sido um enorme presente que você ganhou da Vida. Tenha a consciência de que você já está muitos degraus acima da quase totalidade da Humanidade. Quase todas as pessoas acreditam que suas vidas estão em ordem, que seus valores são os corretos, que agem da melhor maneira possível. Essas pessoas estão cegas e surdas para a feiura de seus egos. Ainda estão totalmente controladas pelo ego, buscando apenas conquistar e gozar o poder, a fama, o dinheiro, o prazer. Em resumo: essas pessoas estão dormindo profundamente…

Já você, quando prometeu mudar algo, foi motivado pela consciência de que esse algo está errado. Esse é o início do começo do despertar.

Abandonar ou não esse algo não é o mais importante: o fato extraordinário é que você deu o primeiro passo para escapar do sono em que está mergulhada a Humanidade. Apelando para o Cinema, você está começando a sair da “Matrix”.

Não sou nenhum mestre em como abandonar vícios, mas consegui ganhar a alforria de três deles (só para dar uma ideia do que isso significou, eu fumava de três a quatro maços de cigarros por dia; quando bebia, esse número chegava a sete ou oito maços; e essa insanidade durou vinte e nove anos). É claro que tenho outros quatrocentos e trinta e dois mil vícios para largar, mas talvez contar minha experiência possa ser útil para alguém.

Você prometeu parar de fumar e está com um cigarro aceso neste momento? Talvez a melhor coisa a fazer seja sorrir e saborear, verdadeiramente sorver a fumaça desse cigarro, além de parar de se preocupar em parar de fumar. Eu fiz assim: assumi que adorava fumar, que iria fumar até meu último dia. Só duas condições coloquei para mim: aceitar sem estresse que poderia adquirir doenças e até a morte com o cigarro, além de me comprometer a fumar cada cigarro com o máximo de consciência, presença, verdadeiramente saboreando-o, curtindo-o ao máximo. Em três dias, sem pensar em largar o tabaco, o cigarro saiu de mim.

A única coisa que precisa ser cumprida é viver este momento ao máximo.

Que tal tomar um chá, agora?

O resto é promessa…

-x-x-x-x

P.S.: Diante do império do politicamente correto que reina na atualidade, acho melhor deixar claro que este é um texto de espiritualidade, não representando nenhuma orientação médica. Não tenho formação na área da Saúde. Apenas conto minhas experiências, não as recomendando para ninguém.




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em janeiro de 2010.

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