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SE QUANDO

Ele tinha sete anos, frequentava o grupo escolar. E vivia a sonhar:

– “Quando eu estiver no ginásio, tudo vai melhorar…”

Aos doze, no ginásio, seu pensamento voava…

– “Quando eu estiver no colégio, aí, sim,vai dar tudo certo!”

Quando tinha dezessete anos, muitas vezes, no colégio, ruminava:

– “Quando eu fizer dezoito anos, vou poder dirigir, assistir a qualquer filme, beber…vai ser o máximo!”

Aos vinte e três, em plena madrugada, sem nenhuma culpa por ter faltado à aula daquela noite na faculdade, ele olhava para o copo e pensava…

– “Quando eu me formar, quando estiver com o diploma na mão, nem o céu vai ser limite para mim.”

E o tempo ia passando…

“Quando eu me casar…”

“Quando eu tiver filhos…”

“Quando meus filhos se casarem…”

“Quando eu me aposentar…”

“Quando eu tiver netos…”

“Quando…”

E ele se casou, e teve filhos, e casou seus filhos, e estes se casaram, e ele se aposentou, e seus netos nasceram.

Ele olhava para seu netinho e viajava…

  • “Ah, se eu tivesse estudado mais, poderia ter alcançado mais sucesso na vida…”

E o tempo ia passando…

“Se tivesse casado mais cedo…ou mais tarde…”

“Se tivesse aberto meu próprio negócio…se tivesse um emprego fixo…”

“Se tivesse feito isto…ou aquilo…”

“Se…”

Ele nem percebia que passara metade de sua vida empurrando sua felicidade para um incerto quando, e a outra metade procurando essa mesma felicidade atrás de um hipotético se.

Entre esse quando – que sempre está para chegar (mas nunca chega, realmente) – e o se, que nada pode mudar, fica o ser humano, espremido entre duas ilusões, deixando escoar a realidade do agora.

O que chamamos de vida é uma pobre sucessão de sonhar com ilusões e de ter saudade do que poderia ter sido.

Já a verdadeira Vida é a experiência plena, profunda e consciente do agora.

A escolha é nossa…agora.

– X – X – X – X – X – X – X – X – X – X – X – X – X – X –

P.S. 1: Mal as avelãs reapareceram (depois de mais de seis meses de ausência), e uma nova tragédia se abateu sobre minhas preferências alimentares. Durante anos eu tomei duas xícaras diárias do chá “Royal Blend” (antigamente, ele se chamava “Tender Leaf”), sem dúvida o melhor chá preto nacional. Pois não é que ele também desapareceu das gôndolas? Pesquisei e descobri que, em maio, a Kraft, responsável pelo produto, parou de produzi-lo (na linguagem deles, houve uma descontinuação…). Convido os admiradores desse chá a reclamarem pelo 0800 704 1940 contra mais esse desrespeito ao consumidor. Por que não avisaram, mesmo que fosse na própria embalagem, que iriam parar com o chá? Por que não venderam o produto para outra empresa? Com certeza haveria interessados.

P.S. 2: Elogiar quem merece também é preciso. A grande imprensa nunca primou pela honestidade em informar. Nesta época de campanha eleitoral, porém, está exagerada a proliferação de mentiras, manipulações, factóides. Um dos raríssimos órgãos que ainda merece nossa atenção é a “Carta Capital”, toda semana nas bancas ou em http://www.cartacapital.com.br




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em setembro de 2010.

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