TAT TVAM ASI ou O SKYPE COMO FERRAMENTA DE BUSCA ESPIRITUAL

Antes de tudo, convém esclarecer que este texto dificilmente será compreendido por quem nunca usou o Skype ou sistemas similares, como, por exemplo, o MSN. Mas ter usado tais ferramentas também não é garantia de compreensão do artigo… Feitas essas observações prévias, continuo com o texto.

Ouvir, ler, estudar é uma coisa; vivenciar o que se ouve, lê ou estuda é outra.

Quase a totalidade das tradições religiosas ensinam que todos somos um, inclusive somos um com Deus.

Na tradição judaico-cristã, a noção de união visceral do homem com Deus aparece em vários trechos do antigo e do novo testamento. Em especial, poderíamos citar estas três passagens:

1 – “Vós sois deuses” (Salmos 81, 6), trecho que é citado por Jesus em João 10,34: “replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós sois deuses?”

2 – “Eu e o Pai somos um”(João 10, 30).

3 – “Pois o Reino de Deus já está no meio de vós” (Lucas, 17, 21).

Já no Alcorão, essa proximidade entre nós e a divindade é levada ao seu extremo, sendo afirmado que Deus está mais perto de nós do que nossa artéria jugular (50ª Surata, Versículo 16).

Magnífico resumo sobre esse tema foi dado pelo monge trapista norte-americano Thomas Keating, no final do ótimo documentário (também norte-americano, de 2005) “Somos Todos Um”. Anotei as legendas:

“O início da jornada espiritual é o reconhecimento, não apenas a informação, mas a real convicção interior de que há uma força superior, ou Deus, ou, para facilitar ao máximo para todos, de que há um Outro, Outro com “o” maiúscula. Segundo passo: tentar se tornar o Outro, ainda com “o” maiúscula. E, finalmente, o reconhecimento de que não há Outro: você e o Outro são um só, sempre foram, sempre serão. Você simplesmente acha que não é.”

Os textos religiosos mais antigos de que temos notícia são os Vedas indianos, os quais receberam comentários nos denominados Upanixades. Se precisássemos resumir os Upanixades, diríamos em Sânscrito (aqui com caracteres ocidentais): “tat tvam asi”. Presente no “Chāndogya Upanixade”, essa expressão significa: “Você é isso”. Em outras palavras, você – o indivíduo – é o Absoluto. Sendo mais claro: Você e Deus são um só. Mais claro, ainda: Você é Deus.

Até aqui, o ouvir, o ler, o estudar. Mas na segunda-feira passada, eu estava no Skype.. Aliás, eu e meus familiares temos várias contas do Skype, algumas para fazer ligações grátis, outras para ligações pagas, umas para contatos pessoais, outras para relacionamentos de estudo ou profissionais.

Era quase meia-noite. O telefone tocou. Meu filho avisava que estava no Skype para que pudéssemos conversar sem gastar nada. Entrei na minha conta do Skype e liguei para a conta de meu filho. Eu realmente estava ansioso para conversar com ele, saber das novidades na sua nova vida na Capital (ele mudou para lá há uma semana), sem descartar uma remota esperança de que ele dissesse que estava voltando para São Sebastião…

Foi estranho: apareceu a mensagem dando conta de que ele não estava conectado. Mas se ele própria me avisou que estava no Skype… Tentei encontrá-lo em outra conta, mas o resultado foi o mesmo. Tentei em outras três contas, sempre com o mesmo fim.

Telefonei, então, para o celular dele, perguntando o que havia acontecido, pois não conseguia encontrá-lo no Skype. Ele então me disse em que conta estava conectado: era a mesma conta na qual eu estava ligado.

Em uma fração de segundo, senti profundamente todo o ensinamento que ouvira, lera e estudara por anos. Eu buscara ansiosamente meu filho, sem conseguir encontrá-lo. O motivo do desencontro: nós dois estávamos na mesma conexão. Enquanto eu pensava que não encontrava meu filho, eu e ele éramos Um. Estávamos tão juntos, mas tão juntos, que a comunicação normal se fazia impossível…

Isso me lembrou da frustração das infinitas vezes em que procurei Deus fora de mim…

Tive, naquele instante, a convicção plena de que somos todos Um.

Eu sou isso.

Você é isso!

Basta lembrar…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em março de 2011.

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Baú do Odair

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