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Título

Há textos que ganham um título, mas há, também, títulos que recebem um texto. Fazendo
um paralelo com o tradicional ensinamento de que a construção de uma casa começa pelo alicerce e
termina pelo telhado, é como se, em alguns casos, a obra começasse por este último.
De fato, às vezes já tive uns estalos em que surgiu um título que considerei interessante, mas
só tinha o título…nada mais. Aí eu começava a enxertar um texto, só para poder dar vida àquele
título.
Voltando ao paralelo com a construção da casa, há vezes em que a obra precisa começar
pela janela. Ou seja: surge na mente uma frase, um pedaço de frase. E lá vou eu, então, inventar
um texto para servir de contexto àquela frase. “Era tão confuso, que seus dois últimos neurônios
eram o Tico e o Catatau”. “Não apenas caiu a ficha; na verdade, o orelhão foi instalado”. Essas são
algumas das frases para as quais cheguei a inventar todo um artigo…só para encaixá-las.
As observações acima ultrapassam, porém, o campo da escrita: na fala do dia-a-dia elas
também são válidas.
Sempre quis, por exemplo, usar a expressão “e tenho dito”. Mas até hoje não tive a chance
de usar esse fecho. Nem em casa, nem no trabalho, nem na rua.
Nem mesmo um simples “ora bolas” eu consegui encaixar – de forma natural – em alguma
conversa.
O máximo, mesmo, penso eu, seria começar com “ora bolas” e terminar com “e tenho dito”.
Isso seria, realmente, muito especial. Só poderia ficar melhor, se fosse possível colocar, no meio,
um “supimpa”. Já que é para sonhar, um “receio que sim” não faria mal.
Voltando à construção de textos, pelo menos duas coisas são imprescindíveis: um título que
não seja muito óbvio, bem como um final que tenha sentido.
É como se diz por aí: se você




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em setembro de 2009.

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Baú do Odair

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