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Transfiguração

É muito bonito falar que “Deus é Amor”, que “o Divino está numa flor que desabrocha”, que “a Luz reside no sorriso de uma criança”. Tudo isso é muito bonito, mas no fundo não passa de poesia, de um conjunto bem ornamentado de palavras.

Eu já tive muitos momentos dessa poesia cósmica, nos quais eu me senti conectado com o Todo, das gramíneas ao Céu. Mas nunca alcancei o sobrenatural: nunca conversei com um espírito, nunca vi um anjo, nunca levitei, nem fiz levitar.

Eu penso que, se tivesse não a fé em Deus, não a crença na Imortalidade do Espírito, mas sim a plena, concreta, real certeza da existência do “outro lado”, tudo em minha Vida mudaria. Medo? Inveja? Rancor? Ansiedade? Todas essas doenças desapareceriam imediatamente. De fato, com a certeza (cer-te-za) de que existe o mundo espiritual, por que ter medo?

Aí começa a confusão… Muitas pessoas afirmam conversar com Deus. Muitas garantem que fazem contato com pessoas que já morreram. Muitas alegam possuir outros “poderes” sobrenaturais.Quase todas elas, porém, ainda sentem medo, inveja, rancor, ansiedade… Como pode ser isso?

Penso que a pessoa que alcança a certeza deveria mudar, verdadeiramente se transfigurar. O passado nos fala de pessoas que, de maneiras diferentes, vivenciaram essa certeza, como Buda, Jesus, São Francisco. E esse passado nos mostra como suas vidas foram transformadas.

Tudo isso me leva a suspeitar que muitas das pessoas que dizem ter essa certeza, na verdade não a têm…

Ou será que essa certeza simplesmente nunca pode ser alcançada? Será que o máximo que podemos atingir é a sensação poética de conexão com o Todo?

Será que a Luz é tão forte, que não podemos olhar para ela? Será que, no máximo, só podemos olhar para as flores, as quais, alimentadas pela Luz, desabrocham e distribuem gratuitamente suas cores e seu perfume a todos?

Muitos místicos disseram que o caminho para o Divino não consiste em procurarmos o Divino, mas apenas aceitarmos a existência, entregando-nos a ela sem reservas. Muitos deles disseram que atingir a iluminação nada mais é do que nos lembrarmos de que sempre tivemos a Luz. Mais do que isso: de que sempre fomos – e somos – a Luz.

Será que, em vez de ficar ansioso por buscar certezas, o melhor que eu tenho a fazer é sentir Tudo, Sempre, Agora? Será que a maior certeza possível é a poesia?

Eu estou respirando, apertando estas teclas. Olho para o Céu. Inspiro profundamente. Olho para a tela, o cursor pisca: lembrei do meu coração.

– Eu vivo!

– Eu sou!!!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em junho de 2009.

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Baú do Odair

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