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UM

A primeira vez que ouvi alguém dizer que as nossas respostas aos acontecimentos, em vez de dependerem destes, dependiam de nossas escolhas, chamei esse alguém de biruta. O que ele dizia, em outras palavras, era mais ou menos isto: diante, por exemplo, de uma colisão na traseira de seu veículo, causada pela imprudência do outro motorista, não é verdade que você precisa, necessária e inevitavelmente, sentir raiva desse motorista. Ou seja: a raiva não é consequência automática da imprudente batida na traseira do seu carro. Ela é consequência da sua escolha por sentir raiva. Birutice, não é mesmo?

Tenho um milhão de defeitos. Mas ouso dizer que duas qualidades eu tenho: sou bom ouvinte e pondero sobre o que ouço. Foi assim quando uma amiga me ensinou, meses atrás, uma maneira nova de armazenar bananas por mais tempo. Em princípio, cheguei a pensar “isso não funciona, eu conheço tudo sobre bananas”. Tentei, porém, o novo método, o qual se mostrou muito bom, passando a ser o adotado em minha casa (na próxima semana, eu explico esse método).

Falei dessas qualidades porque, depois de ter ouvido aquela birutice, pensei em tentar comprovar se havia alguma possibilidade de lucidez nela. Lembrei-me de que, muitos anos atrás, passara a me vigiar para não falar mal dos outros. Fora tão bem sucedido nesse experimento, que não falava mais nada que não fosse absolutamente necessário sobre as outras pessoas. Se tinha conseguido exercitar e domar minha língua, quem sabe a birutice mencionada não tivesse alguma gota de verdade?

No exemplo da colisão, se eu pensasse que o outro motorista poderia ter passado por alguma situação estressante, situação que, se vivida por mim, poderia ter-me levado a um acidente ainda pior, a raiva iria ser transformada em compaixão. Coloquei isso em prática em várias situações, sentindo real e profundamente uma grande compaixão, a qual apagava a raiva, a inveja, o rancor que seriam as consequências “normais” dos acontecimentos.

Mais do que imaginar causas para sentir compaixão pelos outros, passei a me ver nos outros. Se compaixão é “sentir com”, ao me ver nos outros, a compaixão ganhou dimensões que nunca tinha sentido antes.

O último passo que dei – até agora – foi sentir Deus, a Luz, o Absoluto nos outros. A “coisa”, então, passou a ser tão profunda, mas tão profunda, que chegou a ser complicada, de tão simples…

Eu me via no outro, via Deus nele, logo eu me via em Deus, que estava em mim, mas era o outro, que era comigo. Resumindo: eu, o outro e Deus éramos Um.

Não li sobre isso, não imaginei isso, não argumentei, discuti, fingi, sonhei: eu vivi isso.

O problema é que essa percepção se perde rapidamente…e voltamos à birutice de sermos escravos dos acontecimentos… Mas aí recomeçamos…

Praticar isso é muito simples. Só precisamos começar…agora…e recomeçar…agora…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em setembro de 2010.

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Baú do Odair

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