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Veja Bem

Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras.  Pode ser verdade, mas percebo que o modo como as palavras são escolhidas e ditas revela muito sobre o íntimo das pessoas.
               Comecei a ter essa percepção tomando café.  Não, não se trata de um efeito colateral da cafeína.  Trata-se, simplesmente, de observar como as pessoas pedem o cafezinho.  O freguês de todo dia, como eu, nem mesmo fala, só acena; quando muito, resmunga.  Em quase vinte anos, usando apenas movimentos da cabeça, raros acenos e freqüentes resmungos, só duas vezes a atendente perguntou o que eu queria.  É verdade que uma vez me serviram um suco.  Mas era uma funcionária recentemente contratada.  Isso acontece.

               Observei, então, um padrão.  Muitas pessoas faziam seus pedidos num tatibitate arrastado, como o pedido de uma criança mimada, meio cantado no final, fechando como se fosse uma pergunta: vo…cê…me…dá…um…ca…féééé…ziiiiiiii…nho…por…faaaa…vooooor????

               99% dessas pessoas aparentam ter uma situação financeira muito para lá de boa.  Seria esse modo de falar uma expressão de culpa?  Ou se trata, simplesmente, de uma forma politicamente correta (e artificial, é claro) de amenizar o escandaloso desnível financeiro entre quem fala e quem ouve?

               Daí para frente, virou mania: vivo interpretando o jeitão de falar das pessoas.  E quase sempre acerto.

               Seu interlocutor usa diminutivos o tempo todo?  Ele convida para um churrasquinho, sábado à tardinha, diz que vai ter uma picanhinha e pede para você levar uma cervejinha?  Cuidado!  76,92% das pessoas que falam assim são falsas, escondendo as verdadeiras intenções.  No caso citado, não haverá picanha, quando muito, alcatra (não o miolo); vai começar lá pelas oito da noite; e, além da cerveja que você levar, só vai ter uma aguada, barata e quente caipirinha (aqui só dá para usar o diminutivo, mesmo).

               Seu companheiro de projeto usa muito o “nós”?  Nós vamos, nós iremos, nós faremos?  94,33% dos que falam assim não saem disso: só projeto, sem nenhuma ação.

               Já percebeu que muitos começam frases afirmativas com um deslocado, desajeitado, inservível “não”?  “Não…eu só vou dar uma idéia…”  O nome disso é medo, insegurança.  Mas também pode ser sinal de prepotência dissimulada.  Ainda não fechei os dados estatísticos dessa categoria.

               “Veja bem”?  Enrolação em 99,88% dos casos.

               Quem fala com você usa monossílabos (“Humm…é?…não…humm…é…humm.”) o tempo todo?  Provavelmente ele é alguém que tem muito a esconder.  Mas também pode ocorrer que você esteja sendo muito chato.   Uma terceira hipótese é você ter a fama de gravar conversas.  33,33% para cada hipótese.

               Você ouve muito “não diga”?  A probabilidade de você não estar falando nada de novo é de 100%.

               Existem muitos outros tipos de falantes, porém o espaço está chegando ao fim.

               Mas por falar em estatística, um amigo me disse que a chance de que a crise financeira mundial afete o Brasil é de 100%.

               Eu respondi, na lata:

               – Não diga!!!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre, em outubro de 2008.

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Baú do Odair

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