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Vem comigo, Vick!

               Sempre que eu penso que subi um degrau em meu caminho de busca espiritual, levo uma bordoada, como se a Vida me dissesse: você pensa que fez muita coisa?  Pois saiba que não fez nada, ainda.  Caminhe!
               Nunca suportei gatos.  Mas por uma razão que nem eu sei explicar, na penúltima sexta-feira, levei uma gatinha de dois meses para passar o final de semana em minha casa.  Mas vamos começar do começo…
               Cerca de quatro meses atrás, um casal de felinos vira-latas apareceu no meu local de trabalho.  Eu e minha amiga Rose acabamos como que adotando o casal: ela comprou ração, dava água.  Eu comprava sardinha em lata, a título de uma refeição especial.  A gata estava prenhe.
               Para resumir, o macho sumiu, enquanto a fêmea acabou aparecendo com três gatinhas.  Uma foi adotada.  Resolvi, então, como disse, levar a mais calma para passar um final de semana em minha casa.  Só um final de semana!
               A gatinha era muito bonita, com traços de siamesa.  E era muito carinhosa, também: dormia sobre meus pés, pulava em meu colo, subia até na minha cabeça.  Era verdadeiramente “xarope”.  Daí o nome que recebeu de mim: Vick.
               Por dois dias, cheguei a assessorá-la na atividade matinal de fazer cocô: eu a levantava e a colocava em um vaso grande, único local com terra em minha casa.  Feitas as necessidades, eu a recolocava no chão e limpava a superfície do vaso.  Comprei, então, uma caixa para esse fim.
               Ela até parecia cachorro: de cada dez vezes em que eu a chamava, em pelo menos oito ela vinha até meus braços (e nas outras duas, miava, para pelo menos indicar onde estava).
               Confesso que me apaixonei pela Vick.
               Mas no sábado passado, à noite, ela sumiu.  Minha casa ficou sem ninguém por algum tempo, e, acidentalmente, a Vick foi para a rua.  Alguém a levou embora, provavelmente pensando que fosse abandonada.
               Fiquei muito triste pelo desaparecimento da Vick, é claro.  Mas, de repente, senti aquilo como mais uma lição.  É como se a Vida me dissesse:
               – E aí, Odair?  Você não escreveu sobre viver o agora?  Pois agora viva isso!
               Nesse instante, senti que eu vivera ao máximo a presença da Vick, desde a sardinha que dava para a mãe dela, até as cócegas que fazia na sua barriga.  A Vida me ensinava que não posso segurar nada, nem mesmo uma gatinha de pouco mais de dois meses de idade.  Mas também me ensinava que posso (e devo) viver intensamente cada segundo que for possível viver.
               E assim, mesmo com saudades da Vick, eu sinto que valeu a pena essa semana.
               Felicidades, Vick!

……….

P.S.:  Um recado para a pessoa que levou a Vick: sei que você não agiu por mal, muito pelo contrário.  Não nego que ficaria muito feliz se pudesse ter a minha companheira de volta (aliás, você poderia adotar a irmã dela).  Na pior das hipóteses, espero que você trate muito bem da Vick.  Ela merece.




Publicado no “Imprensa Livre”, em fevereiro de 2009.

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Baú do Odair

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