Nenhum comentário

Vendo além dos espelhos.

Por que algumas mudanças, que julgávamos muito difíceis, acabam acontecendo de repente, até com facilidade, enquanto outras, que julgávamos bem mais fáceis, acabam resistindo a nossas tentativas de mudar, por mais que estas sejam sinceras, incisivas, efetivas?

Aconteceu e acontece comigo. Mudei muito nos últimos treze meses, muito, mesmo. Mudei em certas coisas que não acreditava mais que pudessem ser mudadas. Em outras, porém, não consegui dar um segundo passo sequer, por mais que tenha tentado caminhar…

Paulo já dizia que fazia o mal que não queria, que não conseguia fazer o bem que desejava. Isso tudo é um verdadeiro soco na sensação de mudança. Por que isso acontece?

Sinto que a causa é o motor das nossas mudanças. Se queremos, por exemplo, ardente e compulsivamente emagrecer, dificilmente conseguimos emagrecer. Se só pensamos em parar de fumar, dificilmente conseguimos parar com esse vício. Pode ser que até consigamos emagrecer, que consigamos parar de fumar, mas das duas uma: ou acabamos recaindo, ou nada mudamos de verdadeiro na qualidade do nosso viver. Em vez de ganharmos uma nova Vida, mais plena, apenas emagrecemos ou paramos de fumar. Continuamos, porém, a levar uma vida com todos os defeitos de obesos ou fumantes, com todas as suas loucuras…

Escolhemos o motor errado para nossas mudanças por um simples motivo: deixamos que nosso ego, que nosso falso eu seja o motorista. Isso nos leva a querer parar de fumar por causa da saúde, das finanças, da família, dos outros. Todos estes são aspectos do nosso falso eu.

Se o motor da mudança fosse a simples sensação de que meu verdadeiro Eu não precisa do cigarro, ela aconteceria sem traumas, sem rachaduras, levando a uma nova Vida. Esta sensação, portanto, depende de abandonarmos a ilusão do nosso falso eu. Depende, também, de abandonarmos uma outra ilusão: a do tempo. Só quando ultrapassamos o passado (com suas culpas e saudades) e o futuro (com seus medos e sonhos), podemos mergulhar na profunda eternidade do Presente.

Parece meio maluco, mas as verdadeiras mudanças nos levam para onde já estamos.

Sim, já cruzamos a linha de chegada, mas teimamos em nos iludir que nem chegamos à largada.

Deixo um exemplo para que eu possa seguir. Paulo, que perseguira mortalmente os cristãos, no caminho para Damasco, ao cair cego, ao ouvir a voz de Jesus, não chorou implorando perdão pelas atrocidades que fizera, não tremeu de medo pelas vindouras expiações. Em vez disso, perguntou a Jesus o que deveria fazer.

Só podemos mudar, mudando. Só podemos mudar, agora. Que eu sinta isso.

– – – – – – – – – – – – –

P.S.: Gostaria muito de partilhar as alegrias e as dores de meu caminho de mudança. Se alguém também tiver essa vontade, meu email é [email protected]




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em abril de 2009.

Talvez você também goste!
Baú do Odair

Publicações similares

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.
Menu