Zzzzzzz…

Um dos maiores buscadores da consciência de todos os tempos, Gurdjieff, dizia que a
humanidade está dormindo. Cada vez mais percebo que essa é a mais profunda verdade. Embora
seja extremamente difícil percebermos isso em nós mesmos, quando observamos outras pessoas,
começamos a notar o adormecimento dos seres ditos viventes.
Já notou os cumprimentos formais nas festas sociais? Será que as pessoas estão, de fato,
cumprimentando-se? Percebo, geralmente, que aqueles beijos, apertos de mãos e abraços não
passam de atos mecanicamente formais. Se fosse possível a exposição dos sentimentos que estão
presentes nesses gestos, talvez nada encontrássemos (ou talvez encontrássemos sentimentos opostos
aos demonstrados).
Em 2008, descobri que tinha diabetes tipo 2. Por meio de uma dieta criada por mim,
acompanhada de caminhadas diárias, meus níveis de glicose voltaram à normalidade. Eu contei
esse sucesso para várias pessoas. Em vez delas aprenderem comigo, ou pelo menos elogiarem meu
progresso, cada uma delas vinha com a receita de uma erva, de uma comida ou com alguma outra
sugestão para tratar minha doença. Não notavam meu sucesso: estavam tão adormecidas, que
passavam a receitar soluções para um problema já solucionado.
Se analisarmos por alguns minutos o comportamento das pessoas que nos cercam,
começaremos a perceber – verdadeiramente perceber – o adormecimento geral.
E esse mesmo adormecimento é o oceano em que estamos…por menos que consigamos
perceber.
Já percebeu que todos só querem falar, falar, falar? Poucos são os seres que ouvem. Esses
falantes estão completamente adormecidos nos seus egos.
Gurdjieff também concluiu que esse sono é tão forte, que dificilmente uma pessoa – sozinha
– consegue livrar-se dele. Precisamos de um outro que nos acorde. Esse outro alguém recebe o
nome de mestre. E como é difícil existir alguém que mereça ser chamado de Mestre…
A maior tragédia é que, embora adormecidas, as pessoas não reconhecem esse estado, nem
nelas, nem nos outros. O mundo passa a ser, então, um circo de horrores ou uma idealizada
Disneylândia. Como naquela história do rei nu, todos estão encantados com sua maravilhosa roupa;
todos cantam para todos dançarem, por mais que vivam no vácuo, em termos de essência (e o som
não deveria propagar-se no vácuo…).
Dessa maneira, tanto a fútil celebridade que gasta cem mil reais numa bolsa, como o
indivíduo que se faz de bom samaritano, prestando socorro a vítimas de tragédias, mas busca apenas
aparecer na TV, ambos estão dormindo.
E por mais ilógico que possa parecer, o bêbado de rua, o qual, nos raros momentos sem o
efeito do álcool, percebe sua desgraça, pode estar começando a acordar.
Na semana que vem, vou falar de algumas pessoas que acordaram.
Por enquanto, convido você a observar como as pessoas agem de forma mecânica, o tempo
todo, em todo lugar; como são superficiais, meras aparências; como são apenas canudos…




Publicado no “Imprensa Livre”, em maio de 2013.

Talvez você também goste!
Baú do Odair

Publicações similares

Você precisa fazer o login para publicar um comentário.
Menu