O Ribas é uma pessoa muito segura de si. Ele não consegue esconder que se acha muito inteligente, muito esperto. Vive repetindo: “é preciso saber fazer; até para fazer a coisa errada, é preciso saber fazer”.
Sexta à noite, o Ribas se senta na sua poltrona, na sala, televisão ligada. Sua mulher, Paula, ocupa a outra poltrona. A única filha do casal, a Lili, com vinte e um anos de idade, ocupa por inteiro o sofá. Como costumava fazer, a Lili abria a correspondência do dia.
– Tem uma carta do mercado para você, pai!
– Pode abrir, Lili – respondeu, desligado, o Ribas.
– Estão desejando feliz aniversário e informando o saldo de pontos do seu cartão de cliente fiel.
– Que bom! Por falar nisso, acho que os pontos já devem valer cem reais – calculou Ribas.
Lili continuou:
– Veio com um monte de cupons de desconto. Este dá 20% de desconto no achocolatado “X”.
– É o que eu uso – observou Ribas -Vou descontar o cupom amanhã.
– Tem mais: 10% de desconto na margarina “Y”. 30 % no pão integral “Z”.
Paula somou um mais um e arrematou, com ar de quem solucionou um problema difícil de Lógica:
– Ribas, os cupons são de produtos que você costuma comprar. Que bom! Geralmente eles mandam cupons de produtos que a gente não consome.
E Lili continuou:
– 15 % de desconto nas fraldas “W”. 25% de desconto nas calças plásticas “Z”.
Paula, de repente, ficou paralisada.
O Ribas praticamente nem respirava, mirando o teto da sala, arrepiado feito gato diante de uma mangueira aberta.
– Que engraçado, pai: 40% de desconto na papinha “K”!
Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em outubro de 2013.
