2013 FOI IRRITANTE

Este foi um ano em que a mediocridade alcançou índices exponenciais.

Especialmente em São Paulo, surgiu um discurso único, unânime. Só se fala mal do PT, do Lula, da Dilma, dos nordestinos. É um discurso fascista, extremamente reacionário, que pode ser ouvido em qualquer lugar. Esses paulistas, pessoas que têm como sonho de consumo usar aquelas orelhas de rato da Disneylândia, não respeitam nenhum limite imposto pela realidade aos seus desvarios. A própria seção de cartas do Imprensa Livre, quase todos os dias, em vez de publicar as manifestações da população do Litoral Norte, estampa uma meia dezena de arautos da extrema direita, muitos dos quais nem conhecem nosso Litoral. Eles enviam seus venenos retrógrados a vários jornais…e o Imprensa Livre – inexplicavelmente – publica-os.

Se posso fugir dessas cartas, não posso deixar de escutar. Outro dia estava num restaurante, em São Sebastião, sendo que, numa mesa ao lado da minha, típicos paulistanos reproduziam aquela mesma ladainha reacionária ditada pela grande imprensa (digo: imprensa grande), maldizendo o PT, o Lula, a Dilma, os nordestinos. De repente, veio a pérola:

– “São Paulo é PT!” “

Foi demais, para mim: fui embora, mordendo os lábios para não dar resposta…

Triste, mesmo, é ver pessoas que, antes do governo do PT, só entrariam em faculdades como braçais (com todo respeito a estes). Com o PROUNI, porém, viraram alunos. Muitos destes, lamentavelmente, poluídos pelo discurso único das elites econômicas, abrem a boca para cuspirem no prato em que saciaram a fome.

2013 foi o ano do maior e mais vergonhoso erro judiciário do Brasil. Um caso de “caixa 2” de campanha eleitoral se transformou numa caçada à esquerda sem precedentes históricos. Enquanto isso, escândalos que movimentaram quase sessenta mensalões descansam em berços esplêndidos.

Até mesmo os movimentos de junho para cá, em vez de representarem um despertar em termos de consciência política, nada mais foram, em sua maioria, do que um choro de filhinhos de papai querendo aparecer, desrespeitando o direito de ir e vir dos outros, sem nenhum traço de tolerância com aqueles que não se limitam a repetir o que a Globo, o Estadão ou a Veja pregam.

2013 trouxe um retrocesso de milênios, com as religiões ditando a Política, num obscurantismo que faria Voltaire ou Freud praticarem arakiri.

Além dessas questões marginais, os grandes problemas persistiram, agravaram-se. Continuam a colocar mussarela em todo tipo de pizza. Os motoqueiros entregadores, em vez de baterem palmas ou apertarem a campainha, continuam a buzinar em nossas casas, como se procurassem mulheres de “vida fácil” (com todo o respeito a estas, cujo viver é muito difícil). As pessoas continuam comendo “tanto faz”com cobertura de “qualquer um”. Continuam a não querer a nota fiscal paulista (ou são sonegadoras, ou são milionárias de dinheiro caído do céu, ou não são muito inteligentes).

Nossos motoristas – turistas ou praianos – ,continuam a ignorar as placas de trânsito, continuam a praticar a “Lei de Gérson” nas ruas, nas filas, na vida. Depois de praticarem todo tipo de egoísmo e esperteza, falam mal do PT, do Lula…

Que 2014 seja leve!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em dezembro de 2013.

FÊNIX

Dizem que, se a pessoa pensar muito, não casa. Não sei se isso é verdade para o matrimônio, mas esse conhecimento se aplica, sim, a muitas situações da vida.

Você já teve – na rua, no restaurante, no bar – aquela baita dor de barriga, aquela que faz suar? Falo daquela dor de barriga que toma todo o sentido da existência, reduzindo tudo a uma única questão vital: “onde eu vou fazer”? Pois eu já tive essa dor. E sei que, para se fazer uso de banheiros públicos ou de estabelecimentos comerciais, não se pode pensar. Isso é ainda mais grave, quando se trata de algum boteco estilo portal do inferno. Não se pode pensar: é entrar e fazer; só isso.

Esse princípio também se aplica, por exemplo, à retirada de esparadrapo de feridas. Pior do que isso, só mesmo tirar cabelo da orelha com aquelas fitas de depilação. Por ironia divina, meus cabelos estão em duas marchas: para o Leste e para o Oeste. Minha cabeça está cada vez mais lisa; minhas orelhas…cada vez mais lembram o peito do Tony Ramos. Se pensar, ninguém puxa aquela fita.

Dei toda essa volta para dizer que, nos últimos meses, entrei numa brava crise existencial, crise interna, íntima, sem uma causa aparente. Voltei a vícios que havia abandonado, abandonei a alimentação balanceada para diabéticos (reengordando os quarenta e dois quilos que havia perdido), parei com minhas caminhadas diárias, larguei a meditação. Eu não caí: eu afundei.

Nesse processo, também parei de escrever. Pensei muito em voltar…

Voltei! (Pelo menos a escrever.)

Mas estou pensando…quem sabe se…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em abril de 2014.

VIDA DE GORDO É DIFÍCIL

    No mais perfeito estilo sanfona de ser, nos últimos anos eu engordei e emagreci várias vezes. Emagreci trinta quilos, reengordei trinta e dois; emagreci quarenta e dois, reengordei quarenta e cinco…e assim por diante… No momento atual, estou gordo (ou, segundo detratores da forma alheia: gordão).
    São muitos os momentos tenebrosos pelos quais passa uma pessoa gorda (ou gordinha, ou gordona). Do pavor diante da necessidade de sentar em cadeiras de plástico, passando pelo medo de ficar entalado nessas lanchonetes nas quais as mesas e cadeiras são parafusadas no chão, chegando à maldade de servir como ponto de referência em informações sobre onde fica determinado lugar (“Está vendo aquele gordo?”), os gordos sofrem muito. O pior de tudo, porém, surge quando a pessoa volumetricamente não ortodoxa precisa comprar roupas.
    Gordos só podem comprar uma peça de roupa sem preocupação: lenço. Fora isso, entram num mundo de risadinhas, piscadelas, olhares maldosos. O inexplicável é que, se você observar o movimento de qualquer calçada mais movimentada, só passa gente gorda. Pergunto: essas pessoas não compram roupa? Suas vestes são, na verdade, tatuagens? Digo isso, porque a coisa mais difícil é encontrar roupas de tamanho GGG, GGGG, XXXXGGGG, etc.
    Quando se encontra o número desejado, vem a tortura daqueles provadores minúsculos.
    Embora existam lojas especializadas em roupas para gordos, nelas ocorre uma tortura a mais: as sacolas onde são guardadas as compras costumam ser exageradamente enormes. Na verdade, o gordo não sai com sacola: sai com “outdoor”.
    Para completar a tragédia, essas lojas costumam ter nomes que mais parecem tiração de sarro. “Loja da Fofa”, “Mais Pano”, “A Gorda Elegante”…
    Qual mulher falaria para uma amiga:
    – Querida, vamos comigo na “Loja da Fofa”?
    Gordo sofre…

**************
BRIOCHES

CRIAÇÃO COLETIVA

Eu busco.
Tu encontras.
Ele seleciona.
Nós copiamos.
Vós colais.
Eles assinam.

TUDO ISSO SERÁ TEU!

Tudo indicava que Joaquim Orlando iria ter um futuro brilhante.
Mas Joaquim Orlando deu errado.
Não ficou rico,
Não ficou famoso,
Não ficou poderoso,
Não foi amado,
Não foi querido,
Não me lembro do que estava falando…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em novembro de 2013.

PECULIARIDADES

​ Nasci em São Paulo, onde vivi por quase vinte e sete anos.  No dia primeiro de junho de 1988, desembarquei em Ubatuba; um ano depois, vim para São Sebastião, onde moro até hoje.  Eu já me vejo como caiçara; eu realmente amo o Litoral Norte.

​ Não nego, porém, que algumas peculiaridades daqui ainda me espantam.  Se não me engano, já contei a primeira delas, ocorrida em Ubatuba.  Entrei na padaria e pedi uma média e um pão com manteiga.  O balconista pediu que eu repetisse o meu pedido, o que eu fiz.  Percebi que ele saiu com um ar meio estranho.  Logo depois, chegam à minha frente um pão com manteiga…e um pãozinho…sem nada.  Resumindo: na Capital, a média consistia em um copo de café com leite; em Ubatuba, era simplesmente um pãozinho…

​ Outra cena que só vi no Litoral Norte: cachorros dormindo em pleno leito das ruas, sem nem aí para os automóveis que passam ao seu lado.  Você está dirigindo seu carro, avista um cachorro sonhando no meio da rua; o cachorro levanta o focinho, abre um pouco os olhos e volta a dormir (deve pensar: “ah, é só um carro…ele que desvie”).  E é claro que o desvio é feito.

​ Outro detalhe que me espantou: os pombos (ou melhor: a falta de velocidade deles).  Em São Paulo, nunca vi um pombo atropelado.  Já por aqui, quase todo dia cruzo com uma dessas aves estatelada no asfalto.  Na Capital, por mais que os veículos sejam conduzidos em alta velocidade, todos os pombos conseguem fugir a tempo de não serem atropelados.

​ Talvez a peculiaridade mais esquisita seja o comportamento de alguns pedestres.  São muitos os que dão as costas para o fluxo de veículos e começam a atravessar.  Parece que pensam assim: “se eu não olhar para os carros, não vou ser atropelado por eles”).  Se alguém tentar fazer isso em São Paulo, certamente logo será atropelado.

​ Estranho…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em outubro de 2013.

UM DIA A CASA CAI

    O Ribas é uma pessoa muito segura de si. Ele não consegue esconder que se acha muito inteligente, muito esperto. Vive repetindo: “é preciso saber fazer; até para fazer a coisa errada, é preciso saber fazer”.

    Sexta à noite, o Ribas se senta na sua poltrona, na sala, televisão ligada. Sua mulher, Paula, ocupa a outra poltrona. A única filha do casal, a Lili, com vinte e um anos de idade, ocupa por inteiro o sofá. Como costumava fazer, a Lili abria a correspondência do dia.

    – Tem uma carta do mercado para você, pai!

    – Pode abrir, Lili – respondeu, desligado, o Ribas.

    – Estão desejando feliz aniversário e informando o saldo de pontos do seu cartão de cliente fiel.

    – Que bom! Por falar nisso, acho que os pontos já devem valer cem reais – calculou Ribas.

    Lili continuou:

    – Veio com um monte de cupons de desconto. Este dá 20% de desconto no achocolatado “X”.

    – É o que eu uso – observou Ribas -Vou descontar o cupom amanhã.

    – Tem mais: 10% de desconto na margarina “Y”. 30 % no pão integral “Z”.

    Paula somou um mais um e arrematou, com ar de quem solucionou um problema difícil de Lógica:

    – Ribas, os cupons são de produtos que você costuma comprar. Que bom! Geralmente eles mandam cupons de produtos que a gente não consome.

    E Lili continuou:

    – 15 % de desconto nas fraldas “W”. 25% de desconto nas calças plásticas “Z”.

    Paula, de repente, ficou paralisada.

    O Ribas praticamente nem respirava, mirando o teto da sala, arrepiado feito gato diante de uma mangueira aberta.

    – Que engraçado, pai: 40% de desconto na papinha “K”!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em outubro de 2013.

QUAL SUA OPINIÃO?

Num determinado leito de um determinado hospital, um determinado paciente está com um
gravíssimo edema cerebral. Tal paciente está sendo tratado por um médico que, além dos dez anos
de faculdade e de residência, possui mais algumas décadas de prática. Esse médico está prestes a
decidir o tratamento a ser adotado, consistente na craniotomia descompressiva bifrontal. Você (seja
ou não um médico) não leu nem uma linha da ficha clínica daquele paciente. Mesmo assim,
gostaria de saber sua opinião: o tratamento a ser adotado deve, mesmo, ser a craniotomia
descompressiva bifrontal?
Então…qual a sua opinião?
Imagino que a quase totalidade responderá que não é médico, não tendo, por consequência,
condições técnicas de opinar. Imagino que os leitores médicos deixarão de dar uma opinião, em
razão de não conhecerem a ficha clínica do paciente. Imagino, por fim, que todos resolveremos
deixar a decisão a cargo daquele médico com décadas de janela.
Por que, então, todos…todos se acham no direito de dar pitaco no julgamento denominado
“mensalão”? A grande maioria dessas pessoas não possui nenhum conhecimento de Direito; aliás,
não conhecem quase nada…ponto. Mesmo assim – repetindo o que os grandes meios de
comunicação ditam – emitem suas “opiniões” com uma firmeza digna de um jurista brilhante.
Por falar em jurista brilhante, Ives Gandra da Silva Martins, com 78 anos de idade e 56 de
advocacia, além de dezenas de livros publicados, expressou, em recente entrevista concedida ao
jornal “Folha de S. Paulo”:
“Eu li todo o processo sobre o José Dirceu (…) Não há provas contra ele. Nos embargos
infringentes, o Dirceu dificilmente vai ser condenado pelo crime de quadrilha.”
Igual conclusão foi esposada por mim, meses atrás, neste espaço. E muitos me criticaram…
Por que quase todos acham que são juristas?
Por que quase todos acreditam piamente no que a grande imprensa prega?
A resposta é esta: porque quase todos ignoram quase tudo; porque quase todos pensam que a
História começou hoje de manhã.
Mais uma vez: tudo começa (ou pelo menos deveria começar) na Educação.
É triste…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em outubro de 2013.

Edição 1: É preciso ver além da ponta do nariz.

APÓS O TEXTO, OUÇA SUA LEITURA E COMENTÁRIO PELO AUTOR.

 Era uma vez um administrador que, para melhorar o fluxo dos carros na sua cidade, resolveu construir estradas. Derrubaram-se casas, abriram-se estradas. Mas tantas casas derrubaram para construir as estradas, que não havia mais casas, nem carros, nem gente. Muitas vezes, no desejo de resolvermos um problema, acabamos criando muitos outros, às vezes até maiores do que o original. Todos os mestres ensinaram e ensinam que o melhor caminho é o do meio, do bom senso.Sem dúvida ele é o melhor caminho, mas também é o mais difícil de ser trilhado. A escolha, como sempre, só pode ser nossa.

Publicado originalmente na “Revistinha Ria”, Edição 174, em 11/02/2006.

O QUE FAZER?

​Eu estava no quintal, navegando pela Internet.  De repente, tive a impressão de ter visto algo  se mexendo no piso debaixo da churrasqueira.  Então a impressão ganhou status de realidade: um rato saiu de lá, vindo em minha direção.  Não, não pulei, mas confesso que fiquei meio sem saber como reagir àquela invasão.  Corajosamente, então, dei dois passos para trás; o rabudo passou por mim, sem nem mesmo se apressar, e foi para uma grelha que dá acesso à galeria de águas pluviais.  Para os que já estão achando que eu deveria ter, pelo menos, chutado o rato, esclareço que estava de chinelo (eu, não o rato).

​Fiquei indignado…muito indignado.  Nem tanto pela presença do rato (pelo menos uma vez por ano recebo esse tipo de visita, oriunda do esgoto ou da galeria citada).  O que me deixou irado foi o fato daquele animal nem mesmo ter acelerado o passo diante da minha presença.  Ele pediu guerra, e eu estava pronto para a luta.

​Não, não queria saber de ratoeiras ou papéis com cola: naquelas, quase sempre, sumia a isca; estes, por sua vez, acabavam misteriosamente sumindo.  Desta vez a artilharia seria pesada: comprei uma armadilha, armadilha grande.  No seu interior é colocada a isca; quando o rato tenta alcançar a iguaria, cai no fundo e fica lá, sem saída.

​A guerra durou só uma batalha.  Pela manhã, lá estava o animal acuado, com um rabão enorme.  Não sou de questionar o “design” divino, mas para que serve um rabo tão desproporcional?  Parecia um eletrodoméstico desconectado da tomada.

​Bem, lá estava a minha presa, meu prisioneiro de guerra.  Percebi, então, que sobrava uma “pequena” questão: quem vai matar o rato?  Olhei para ele: tinha um cabeção; olhava para mim com ar de cachorro “pidão”, mexendo o nariz e as orelhas (cada uma em um sentido próprio).

​Tudo na minha casa ganha nome, da geladeira ao automóvel.  Não demorou muito para que o meu prisioneiro passasse a ser chamado de Tomás.

​Ninguém na minha casa estava com coragem de matar o Tomás…muito menos eu.  Diante desse impasse, como ele havia comido a mortadela que usara como isca, nada mais justo do que fornecer uma última refeição ao condenado à morte.  Joguei um pedaço de queijo naquela verdadeira gaiola.  O Tomás demorou um pouco, mas acabou atacando a iguaria.  Improvisei um recipiente com água.  Iria resolver o seu destino com calma.

​À noite, fui para o quintal beber cerveja, comer salame e pensar no que fazer com o prisioneiro.  Descobri que o Tomás gostava muito de salame….e de cerveja, também (passou a passear pelas grades da gaiola, para cima, para baixo, para os lados…uma mordida no salame, mais um gole…).  Já estava tarde…”amanhã eu resolvo”!

​A verdade é que já se passaram alguns dias.  Eu sei que não posso ter um rato de esgoto como bicho de estimação.  Eu sei que vou precisar dar uma solução para esse caso.  Mas por enquanto…eu vou comprar mais salame.

–  –  –  –  –  

P.S.: Fiquei um tempo sem escrever neste espaço, em razão de uma brava crise existencial-cívico-etílica.  Voltei.

P.S. 2 – Embora a Argentina esteja passando por uma crise delicada, o assunto nacional é a calça “legging” que a presidente Cristina Kirchner usou dias atrás.  Trata-se daquela calça apertada, que gruda na pele, acentuando (ou simulando) as curvas carnais.  Moral da História: com calça ‘legging” , até eu fico gostoso.

P.S. 3 – Quer mais?  Só em http://www.nuaecrua.com

P.S. 4 – Estou com uma dor de dente do cão!




Publicado pelo “Imprensa Livre”, em setembro de 2013.

TENSÕES DOMÉSTICAS

​-“Agora, minhas finanças estão sob controle!”

​Repeti essa frase, já quase na Rua da Praia, talvez pela trigésima vez.  Esta história, porém, começou algumas centenas de metros antes…

​Bem ao lado do estacionamento do Supermercado Garça, deparei com um rapaz vendendo porcos.  Não, não voltamos ao tempo em que se vendia carne pelas ruas centrais de São Sebastião: eram porcos de barro, destinados ao armazenamento de moedas, vulgarmente conhecidos como “cofrinhos”.

​Havia vários modelos, de diversos tamanhos.  O rapaz, verdadeiro especialista em porcos de barro, explicava qual a capacidade de armazenamento de cada modelo.

​Ah! a ganância…  Meus olhos se fixaram num porco que, devidamente alimentado com moedas de um real, proporcionaria, no final da engorda, a quantia de dois mil reais, quantia necessária para comprar uma nova geladeira.  Do olhar para a aquisição foi um segundo.  Antes, porém, como precisa ser de praxe, consegui que o seu preço caísse de dez para nove reais.

​Peguei o meu porco, feliz da vida (aliás, felizes, uma vez que o porco também exibia um sereno ar de felicidade).

​Quando fui colocar a primeira moeda no porco – a mesma que recebera de troco – tive uma idéia.  Não sou nem um pouco supersticioso, mas pensei que, antes de dois mil atos em busca das minhas próprias finanças, seria conveniente um ato de altruísmo: em vez de ir para o porco, aquela moeda foi de volta para as mãos do vendedor.  Uns dirão que fiz isso para dar sorte, mas insisto que não passou de um ato quase científico.

​Então eu olhei para o porco, ele olhou para mim: Wilson!  O nome do porco iria ser Wilson (eu e minha família temos o hábito de dar nome para tudo, do meu fusca (Flocão) à chaleira que apita (Margô).  E aquele porco tinha cara de Wilson.  Minha filha mais nova, que me acompanhava, perguntou se o nome escolhido era devido à bola que fez companhia ao personagem do Tom Hanks, no filme “O Náufrago”.  Quase revoltado pela sua insinuação de imitação, expliquei que, provavelmente, a escolha teria sido levemente influenciada por alguma antiga propaganda de um frigorífico homônimo.  A verdade, porém, é que o nome ficou sendo Wilson.  Espero que os Wilsons não se ofendam.  Pelo contrário, podem sentir-se homenageados, uma vez que o Wilson tem um ar muito simpático.

​Ainda naquela calçada, com o Wilson debaixo do braço, soltei a piada para um amigo que passava:

​-“Agora, minhas finanças estão sob controle!”

​Risadas daqui, risadas de lá.  Continuei repetindo a graça para todos os conhecidos que encontrei pelo caminho.  Minha filha – não sei o motivo – foi ficando para trás…

​Comprei minha geladeira (que, aliás, não tem nome…caso raro) quando casei, em 1989.  Por uns cinco anos, funcionou normal e silenciosamente.  De repente o seu motor passou a fazer um barulho…um barulhão.  E, cada vez que o motor desliga automaticamente, o barulhão é algo indescritível, talvez idêntico à parada de um trem.  Levei-a ao técnico, o qual me disse que não compensaria mexer no motor: ela poderia parar de funcionar a qualquer momento.  E esse momento não chegou até hoje…

​Coloquei o Wilson no chão da cozinha, num canto oposto ao da geladeira.  Pode parecer loucura, mas eu tenho a nítida impressão de que o Wilson e a geladeira trocam olhares nervosos…  Talvez seja porque ambos estão sob a espada da impermanência: a geladeira pode parar a qualquer momento; o Wilson, depois de duas mil moedas, vai virar uma geladeira…é filosofia demais…

​A verdade, porém, é que está acontecendo algo que parecia impossível: desde a chegada do Wilson, a geladeira está fazendo ainda mais barulho.  Será um protesto por ter sido escancarado o seu futuro?  Será por não ter nome?

​Repito que não sou supersticioso, mas…Etelvina é um bom nome para a minha geladeira?




Publicado originalmente no Imprensa Livre”, em julho de 2011.

Zzzzzzz…

Um dos maiores buscadores da consciência de todos os tempos, Gurdjieff, dizia que a
humanidade está dormindo. Cada vez mais percebo que essa é a mais profunda verdade. Embora
seja extremamente difícil percebermos isso em nós mesmos, quando observamos outras pessoas,
começamos a notar o adormecimento dos seres ditos viventes.
Já notou os cumprimentos formais nas festas sociais? Será que as pessoas estão, de fato,
cumprimentando-se? Percebo, geralmente, que aqueles beijos, apertos de mãos e abraços não
passam de atos mecanicamente formais. Se fosse possível a exposição dos sentimentos que estão
presentes nesses gestos, talvez nada encontrássemos (ou talvez encontrássemos sentimentos opostos
aos demonstrados).
Em 2008, descobri que tinha diabetes tipo 2. Por meio de uma dieta criada por mim,
acompanhada de caminhadas diárias, meus níveis de glicose voltaram à normalidade. Eu contei
esse sucesso para várias pessoas. Em vez delas aprenderem comigo, ou pelo menos elogiarem meu
progresso, cada uma delas vinha com a receita de uma erva, de uma comida ou com alguma outra
sugestão para tratar minha doença. Não notavam meu sucesso: estavam tão adormecidas, que
passavam a receitar soluções para um problema já solucionado.
Se analisarmos por alguns minutos o comportamento das pessoas que nos cercam,
começaremos a perceber – verdadeiramente perceber – o adormecimento geral.
E esse mesmo adormecimento é o oceano em que estamos…por menos que consigamos
perceber.
Já percebeu que todos só querem falar, falar, falar? Poucos são os seres que ouvem. Esses
falantes estão completamente adormecidos nos seus egos.
Gurdjieff também concluiu que esse sono é tão forte, que dificilmente uma pessoa – sozinha
– consegue livrar-se dele. Precisamos de um outro que nos acorde. Esse outro alguém recebe o
nome de mestre. E como é difícil existir alguém que mereça ser chamado de Mestre…
A maior tragédia é que, embora adormecidas, as pessoas não reconhecem esse estado, nem
nelas, nem nos outros. O mundo passa a ser, então, um circo de horrores ou uma idealizada
Disneylândia. Como naquela história do rei nu, todos estão encantados com sua maravilhosa roupa;
todos cantam para todos dançarem, por mais que vivam no vácuo, em termos de essência (e o som
não deveria propagar-se no vácuo…).
Dessa maneira, tanto a fútil celebridade que gasta cem mil reais numa bolsa, como o
indivíduo que se faz de bom samaritano, prestando socorro a vítimas de tragédias, mas busca apenas
aparecer na TV, ambos estão dormindo.
E por mais ilógico que possa parecer, o bêbado de rua, o qual, nos raros momentos sem o
efeito do álcool, percebe sua desgraça, pode estar começando a acordar.
Na semana que vem, vou falar de algumas pessoas que acordaram.
Por enquanto, convido você a observar como as pessoas agem de forma mecânica, o tempo
todo, em todo lugar; como são superficiais, meras aparências; como são apenas canudos…




Publicado no “Imprensa Livre”, em maio de 2013.