VOCÊ ESTÁ ENTENDENDO? VOU EXPLICAR DE NOVO…

Já escrevi neste espaço sobre muitas coisas que me irritam: motoqueiros buzinando
freneticamente na porta da minha casa (parece que nunca ouviram falar de campainha ou de
palmas); bilheteiros insistindo para eu comprar o bilhete do porco (ou do peru, da borboleta,
do pavão…); pizzarias que colocam mussarela em tudo; pessoas que falam tudo no diminutivo;
caixas de supermercado perguntando, depois da passagem do último produto, se podem
encerrar a compra…são tantas as coisas que me irritam… Vou falar de mais uma.
Algo que mexe com meu fígado, com meus rins, com a última gota da minha tolerância
é a repetição. Há pessoas que repetem um milhão de vezes a mesma história. Além disso,
começam na pré-história. Para contarem um caso ocorrido, por exemplo, num barco, contam,
primeiramente, como foi seu primeiro contato com o mar, na infância; como eram os barcos
quarenta anos atrás; quais eram os nomes dos navios da Marinha; o motivo de poita se
chamar poita…
Poita!!! Será que essas pessoas não percebem que eu não estou nem um pouco
interessado em saber a razão da poita se chamar poita?
Mas tudo isso até dá para engolir. O que engasga, mesmo, é que, na segunda, eles
repetem a mesma história do sábado. Na quinta seguinte, idem. No início, por camaradagem,
eu até finjo interesse, espanto diante do clímax, risada diante daquele escorregão cujo
diagrama já decorei. No decorrer das repetições, porém, começo a olhar para o horizonte,
para ver se eles se tocam. Em vez disso, eles que me tocam, cutucam, cobrando minha
atenção para aquela narrativa que já ouvi mil vezes. Quando a repetição ocorre com piadas, a
irritação se transforma em desespero…
E o que dizer daquelas pessoas que não apenas repetem a mesma história todos os
dias, mas repetem palavras e frases cada vez que abrem a boca?
Você pergunta se eles sabem quem abriu tal negócio. A resposta: foi o Betão…o
Betão..o Betão que abriu…foi o Betão, sim…o Betão…
Isso irrita. Irrita, sim. Isso irrita, mesmo. Irrita muito. Irrita!




Publicado no “Imprensa Livre”, em maio de 2013.

Rastros de um anelo que… (ou: O que é Consciência?)

​A quase totalidade da Humanidade vive no mesmo nível dos outros animais.  São, na verdade, meros canudos.  Numa das extremidades desses canudos entram ar, água e comida; na outra, os resíduos dessas ingestões são dispensados.  Esses canudos também possuem uma estrutura não material, composta por elementos como o orgulho, a vaidade, o desejo, que nada mais são do que encarnações do apego ao “status” de ser canudo.  Essa estrutura faz com que os canudos se esqueçam de que são simples canudos.
​Muito raramente, algum desses canudos começa a sentir uma sede diferente da que sempre sentiu.  É uma sede de sentido.  É uma sede que não se extingue com a fama, com a fortuna, com o poder, com o sucesso.  Mesmo diante de vitórias materiais, como que surge uma voz, não se sabe de onde, balbuciando bem baixo: “estou com sede”!
​A maioria desses raríssimos canudos sedentos de sentido, em vez de buscarem a fonte onde poderiam matar a sede, mascaram-na com o álcool ou outras drogas, com o jogo, com a luxúria, etc.  Em pouco tempo aquela sede fica amortecida; não saciada, apenas amortecida.
​Transcrever em palavras a busca do sentido, da Luz, de Deus, da Consciência, enfim, é exercício tendente ao fracasso total.  Tudo fica com aparência de livro de auto-ajuda.  Parece que tudo não passa de poesia barata.  Para evitar isso, vou tentar (apenas tentar, é claro) esclarecer um pouco mais a sede acima mencionada.  Tanto nas religiões como nas ciências, sempre houve referências a algo que dá força a tudo, a algo que fica além dos limites da materialidade que percebemos, a algo que seria a energia primordial que dá e mantém a vida como a conhecemos.  Por milênios essa energia recebeu o nome de éter; no hinduísmo, era chamada de “prana”; no cristianismo, está estampada na frase “o reino de Deus está em vós”; Wilhelm Reich a denominava “orgônio”.  Se ampliarmos essa entidade para os níveis de uma vida que parece permear todas as vidas, até o “inconsciente coletivo” de Jung poderia ser aqui incluído.
​O nome dado a esse algo que permeia todos os algos não é o que importa.  Importante é que, de repente, algum canudo começa a suspeitar da existência de algo além de seu algo, de um nível mental mais profundo do que sua mente diária.  Sua percepção se expande…
​Para aqueles poucos que não fogem da sede de sentido, tem início o caminho da busca espiritual.  Daí para a frente, sem a menor sombra de dúvida, não é possível nenhuma descrição dessa trilha, nem mesmo lançando-se mão das mais belas parábolas.  Trata-se de um caminho pessoal, criado a cada passo, sem traçado prévio, sem pódium de chegada.
​Para alguns, a Compaixão é o guia.  Para outros, é o trabalho duro sobre o corpo e a mente.  Para uns, trata-se de um perceber-se; para outros, de um doar-se.
​Certa vez criei um site no qual iria publicar minhas experiências de busca espiritual.  O subtítulo que dei ao site pode dar uma ideia da dificuldade intransponível que é tentar trazer para a palavra esse caminhar: “rastros de um anelo que…”.  Foi o máximo de verbalização que consegui.
​Feita a introdução acima, vou tentar traçar vislumbres do que seja Consciência.  Mas só na próxima quinta-feira.
​Vou, porém, deixar uma cena do próximo capítulo.  Você sabia que um bêbado de rua, nos momentos em que está livre dos efeitos do álcool, se conseguir reconhecer o inferno em que vive, estará mais perto da Luz do que um homem materialmente bem sucedido, o qual – apenas para saciar seu desejo – faz planos para comprar seu segundo helicóptero?




Publicado no “Imprensa Livre”, em maio de 2013.

AINDA OUÇO

​Quem, em São Sebastião, nunca cruzou com ele?
​Começava com um som baixo, bem de longe.  Dali a pouco já era possível distinguir não as palavras ditas, mas sua voz.  Surgia, então, o carro da Prefeitura, com um motorista e, ao seu lado, ele; empunhando o microfone, olhando para a paisagem humana pela qual passava, soltava seu brilho vocal:
​- Alô, amiguinho!  Alô, amiguinha!
​Quantas vezes ouvi aquela voz inconfundível de locutor de rádio…
​Dava conselhos para evitar os males da dengue; avisava sobre o início da vacinação; anunciava uma apresentação cultural no Teatro Municipal; conclamava todos a colaborarem com a Campanha do Agasalho.
​Por onde passava, ia cumprimentando as pessoas:
​- Olha a criançada indo para a escola!  Cuidado com o trânsito!
​- Muito boa tarde aos comerciantes!
​- Bom dia, professora!
​Não gosto muito de diminutivos, mas essa era uma exceção: seu “amiguinho” só era diminutivo na forma; no conteúdo, era muito profundo.
​Tive a honra de homenagear o “Amiguinho” em um de meus artigos.  Cheguei a contar que, numa sexta-feira, estava saindo para a Capital com minha família, já no carro, sem querer chamar a atenção, quando surge o “Amiguinho” e solta um “boa viagem”.
​O seu poder de comunicação era sensacional.  Eu, por exemplo, depois de seus conselhos irradiados pelo ar, conferia, na hora, se havia algum possível foco do mosquito causador da dengue em minha casa; ou corria ao armário em busca de alguma roupa sem uso.
​Sem medo de exagerar, se o Brasil teve o seu Chacrinha, São Sebastião teve o seu “Amiguinho”.
​Nas vezes em que tive o privilégio de conversar com o “Amiguinho”, senti sua humildade, sua alegria, seu amor pelo que fazia.
​O seu amor não pode ter acabado com a morte.  Tenho certeza de que ele já está circulando, em uma nuvem, pelas ruas do Céu, soltando aquela voz inconfundível, cheia de coração:
​- Alô, amiguinho!  Alô, amiguinha!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em abril de 2013.

ESTÁ TUDO ERRADO

​Dias atrás, um ônibus caiu de um viaduto, no Rio de Janeiro, causando a morte de sete pessoas, bem como ferimentos em outras onze.  O que mais me chamou a atenção nas imagens do acidente foi a fragilidade do ônibus: parecia um pastel; o teto do ônibus praticamente grudou no assoalho.

​Não é preciso ser engenheiro mecânico para perceber que, para se evitar o esmagamento de passageiros em casos como o que foi descrito, deveriam existir barras que absorvessem o impacto.  Nos ônibus que circulam por nossas ruas, do assoalho para cima, em termos de segurança, é tudo tão rígido como casca de ovo.

​A verdade é que até gado é transportado com mais segurança.  Onde estão os cintos de segurança?  E os encostos de cabeça, a fim de evitar lesões fatais no pescoço, em caso de colisão traseira?

​Não bastasse isso, são frequentes as notícias de blitzes nas quais se constata que os pneus dos coletivos estão sem a mínima condição de segurança.

​Será que os maus “empresários” do ramo de transporte coletivo não possuem uma gota remanescente de humanidade?  Será que o único móvel de suas vidas é a ganância sem fim?  Ia esquecendo: não bastasse todo esse caos, o motorista ainda é obrigado a cobrar a passagem e dar o troco.  Você não leu errado: embora os motoristas de automóveis não possam dirigir falando ao celular, os motoristas de ônibus cobram passagem, enquanto conduzem com suas mãos dezenas de vidas nessas latas de sardinha frágeis como ovo.

​Grande parte da culpa por esse quadro selvagem, porém, cabe aos próprios usuários do serviço de transporte coletivo.  De fato, enquanto, por exemplo, muitos executivos e autoridades, na Europa,  viajam de ônibus, no Brasil esse meio de transporte é visto como destinado a quem (ainda) não conseguiu comprar seu carro ou pagar um táxi.  Os usuários não estão muito preocupados em melhorar o transporte coletivo; eles querem poder ter um carrão e passar pelo ônibus que antes usavam…dando uma banana para os passageiros do “busão”…

​Em resumo, tanto nos maus empresários, como nos maus usuários, o problema é o mesmo: ganância sem freio.

​Não se faz um país com essa matéria-prima…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em abril de 2013.

PALAVRAS

É impressionante como quatro palavras podem mudar tudo. Podem acabar com uma
amizade antiga, podem causar sustos de risco para cardíacos, podem esvaziar o bolso de
qualquer um.
O palco varia: pode ser uma oficina mecânica, a sala de sua casa cheia de goteiras, uma
alfaiataria. As personagens são: você e uma pessoa que você conhece há algum tempo, seu
amigo ou amigo de um amigo. O enredo é simples: você leva seu carro para consertar, ou traz
um pedreiro para avaliar as goteiras do telhado, ou pede para uma costureira fazer alguns
ajustes na sua roupa.
O ponto alto da tragédia acontece quando você pergunta o preço do serviço. Nesse
exato instante, surgem aquelas quatro fatídicas palavras:
“Depois a gente vê!”
Você insiste, mas o seu interlocutor repete aquelas palavras, às vezes acrescentando
outras: “deixa comigo!”; “não esquenta a cabeça”. E, realmente, você vai acabar deixando
com ele muito mais dinheiro do que imaginava… E sua cabeça também vai esquentar de raiva.
São muitos os exemplos de palavras perigosas. O que dizer, por exemplo, do “volto
logo”? Ou dos famosos “já tô indo” ou “tô chegando”? Na prática, não representam nada em
termos de tempo. Seus conceitos são extremamente elásticos. Conheço várias pessoas que,
mal acabaram de sair de São Paulo, conseguem dizer, com a maior cara lavada, para alguém
que telefona do Litoral Norte: “tô chegando”.
As palavras mais perigosas, porém, principalmente quando proferidas em uma
discussão entre marido e mulher, são as famosas: nunca, sempre, tudo, nada. Funcionam
como jogar gasolina sobre uma fogueira.
Nessas horas, talvez o melhor seja apelar: “vou dar uma saída e já volto”!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em fevereiro de 2013.

DETALHES.

O Zé é uma ótima pessoa.
​Já o chamara algumas vezes, sempre para pequenos reparos: trocar o couro de vedação de uma torneira, instalar um chuveiro, trocar o capacitor de um ventilador.
​Quando da instalação do novo chuveiro, eu já deveria ter percebido algo estranho no ar…ou na água.  Todos conhecem aquela lei da Hidrodinâmica, segundo a qual,sempre que, no mesmo banheiro em que alguém está tomando banho, outra pessoa dá a descarga no vaso sanitário, além de sons e odores eventualmente indesejáveis, dois fenômenos acontecem: 1 – ficamos desejosos de saber por que aquela pessoa não usou outro banheiro, ou, pelo menos, por que não esperou que o banho terminasse?; 2 – o fluxo de água no chuveiro é interrompido, durante o tempo em que a água cai no vaso.  Em dias mais frios, aqueles segundos sem nenhuma gota no chuveiro são extremamente irritantes…  Mas o Zé conseguiu ampliar os limites dessa Lei: quando abro a torneira do lavatório, o chuveiro pára.  Fazer a barba se transformou em um problema muito complexo.
​Mas, como disse, nem levei a sério o fato acima narrado.  Tanto isso é verdade, que chamei o Zé para solucionar um entupimento na pia da cozinha.  Deixei o especialista analisando, de quatro, o que ocorria com o encanamento, e fui trabalhar.
​Voltei para casa na hora do almoço: ele me disse, com o mesmo ar com que um médico dá seu veredicto, que o vazamento era mais profundo…precisaria quebrar o piso sob a pia para novas investigações.  Num gesto que iria causar-me muito arrependimento, respondi, sem dar muita importância a sua fala: o senhor pode fazer o que for necessário.
​Nessa noite, quando abri a porta da cozinha, lá ainda estava o Zé, com uma marreta na mão.  Do piso quase nada sobrara; da pia…que pia?  Disse-me que descobrira o vazamento, mas era bem maior do que imaginara; fora, então, rasgando o trajeto das águas em fuga, chegando a quebrar alguns azulejos, em busca de outros possíveis vazamentos.  Diante do campo de batalha em que se transformara nossa cozinha, até mesmo minha mulher, que sempre quisera trocar o piso e o azulejo, tinha um olhar de “o que é isso, meu Deus?”
​Para resumir a história, trocamos a pia, o encanamento, o piso e o azulejo.  Já que haviam sobrado apenas as paredes, também instalamos armários novos.  E coifa nova.  Para combinar com o armário novo, também chegaram mesa e cadeiras novas.  Para combinar com o inox da coifa, nova geladeira, novo freezer e novo fogão.  Por último, novos ventiladores de teto.
​É claro que, assim como fizera quando da instalação do chuveiro, o Zé deu seus toques especiais na nossa cozinha.  O botão de ligar a coifa, por exemplo, acionava um dos ventiladores.  Quanto à coifa, seu botão de acionamento ficava na parede oposta.  Pode parecer loucura, mas sou capaz de jurar que, quando a coifa é ligada, as luzes ficam mais fortes.   Também desconfio de que o rádio pega melhor, quando a torneira é aberta.  Eu me sinto meio tonto dizendo isto, mas, com as janelas abertas, a torradeira esquenta o pão muito mais rápido.
​Fazer o quê?  Além de tudo, o Zé é uma ótima pessoa.
​Já nos acostumamos com esses pequenos “detalhes”. Ontem, por exemplo, chegou o novo micro-ondas.  Minha filha mais velha foi esquentar um copo de leite, mas o aparelho não ligava.
​- Já tentou abrir a porta da sala primeiro, Gabriela?




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em fevereiro de 2013.

A MAIOR TRAGÉDIA DE TODAS.

Uma colunista de um dos representantes da grande imprensa do Brasil escreve, na sua última edição, que não deveríamos estar comemorando o Carnaval, uma vez que a tragédia ocorrida em Santa Maria ainda é muito recente, além do que muitas de suas vítimas ainda estão internadas em hospitais.
​É claro que as vítimas de Santa Maria, seus parentes e amigos merecem toda nossa solidariedade.  É claro que qualquer pessoa com um mínimo traço de humanidade sentiu tristeza diante daquele horror.
​Não podemos nos esquecer, porém, que muitas mortes ocorrem a nossa volta, todos os dias, sem que nos preocupemos em fazer algo para mudar esse quadro.
​Com cerca de 41 mil mortes no trânsito (dados de 2010), a cada dois dias, no Brasil, o mesmo número de mortos de Santa Maria cai sem vida em nossas ruas e estradas.  E não fazemos nada…  Aqui onde moro, em São Sebastião, é revoltante o desrespeito dos motoristas pela faixa de pedestre, desrespeito que acontece em quase todas as cidades (exceção digna de nota e de elogios é Caraguatatuba, distante daqui pouco mais de vinte quilômetros).
​Já escrevi, certa vez, que o Brasil é o resultado do cruzamento do caos com a entropia.  Como essa definição se aplica com perfeição ao nosso comportamento no trânsito…  Motoristas realizam ultrapassagens insanas, numa pressa inexplicável.  Motociclistas querem revogar aquela lei da Física, segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, querendo passar ora pela direita, ora pela esquerda, quase sempre invadindo a mão contrária.  Ciclistas acham que não precisam obedecer nenhum regulamento, embora estejam conduzindo um veículo (de tração humana, mas veículo…aliás, dependendo do ciclista, melhor seria definir a bicicleta como de tração “animal”).  Igual comportamento desenvolvem os pedestres, que desrespeitam abertamente os semáforos.
​Dá para fazer um país, assim?
​Somos a terra do 8 ou 8.000.000.  Hoje se encontram botijões de gás em quase todo lugar, até em bares, sob mesas de bilhar, com homens fumando e bebendo sobre eles.  Se amanhã ocorrer uma explosão, com certeza, nos dias seguintes, serão lacrados milhares de bares; talvez até seja proibido o uso de gás de cozinha…precisaremos comprar lenha…  Em vez de exageros – tanto na falta de fiscalização, como no excesso desta – não seria melhor uma ação permanente, rígida, mas com bom-senso?​
​Preciso também fazer uma observação sobre os socorristas voluntários que atuaram em Santa Maria.  Com certeza a maioria estava lá para ajudar.  Muitos, porém, só queriam aparecer na TV.  Aliás, muitos dos que foram até lá para ajudar desconhecidos, muitas vezes não visitam nem o pai idoso.  É como aquela história do adolescente ir fazer limpeza na praia, enquanto seu quarto parece ter sido atingido por uma bomba atômica…
​A nossa maior tragédia tem um nome: hipocrisia.  Só seremos um país de verdade, quando pararmos de acusar os outros; quando alcançarmos a consciência de que o mal do Brasil está em cada um de nós: quando desrespeitamos a faixa de pedestre, quando furamos fila, quando compramos mercadorias de preço inexplicavelmente baixo, quando baseamos nosso voto em interesses escusos.  Só sabemos falar mal dos políticos.  Nós nos esquecemos, porém, de que eles não vieram de Marte; eles vieram do nosso meio, por intermédio de nossa escolha.
​Precisamos parar de posar de pobres vítimas.
​Somos os autores!

–  –  –  –  
P.S. No meu site www.odair.com.br  eu leio e comento este e outros textos de minha autoria.  Aguardo sua visita!




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em fevereiro de 2013.

EU ACREDITO, EU ACREDITO, EU ACREDITO.

​Há mais de um mês não escrevo neste espaço.  O motivo: meu espanto e desânimo diante da exacerbada imbecilização da nossa sociedade nos últimos meses.  De fato, depois do julgamento do denominado “Mensalão do PT”, as pessoas adotaram um pensamento único, uma visão unânime dos fatos: em vez de perceberem o que de fato ocorreu (e ocorre em praticamente todas as campanhas de todas as eleições: caixa dois), abraçaram “raciocínios” no mínimo errados, distantes da ciência jurídica, que classificaram aquelas ações como atos de corrupção.

​Não vou nem apelar para Nelson Rodrgigues, com o fim de qualificar essa unanimidade nacional, que endeusa o Ministro Joaquim Barbosa (que negou quase tudo que aprendi na faculdade), ao mesmo tempo que enxovalha o brilhantíssimo jurista Ricardo Lewandowski.

​Esse quadro é muito triste.

​É muito triste constatar como os grandes meios de desinformação do Brasil conseguiram destruir grande parte da sanidade mental nacional.  Somando-se o poder sem limites desses órgãos (que transformam papel e ondas eletromagnéticas em lixo) à pouca ou nenhuma educação (principalmente histórica) do nosso povo, temos um caldo de incultura selvagem, no qual a extrema-direita, em especial a paulista, deita, rola e desenrola sobre a nação loucuras dignas de Pinel.

​É muito solitário e difícil, nos dias de hoje, pensar por conta própria, sem repetir o que os grandes meios de desinformação ditam.  Nas suas páginas, nos seus programas de TV e de rádio, o discurso é um só: morte ao governo, ao PT e ao Lula!  A seção de cartas dos leitores do Imprensa Livre não foge a essa regra: salvo raríssimas exceções, é um desfile insano de impropérios, num discurso tosco da direitaça rancorosa.

​O mais triste é que mesmo pessoas que só deveriam agradecer ao governo do PT por suas conquistas, mesmo essas pessoas repetem o discurso vazio da direita mais brucutu de todos os tempos.  Quantas pessoas, há oito anos, saíam do mercado com cinquenta gramas de apresuntado, enquanto hoje levam um presunto inteiro para casa.  Quantas pessoas, há oito anos, só tinham como destino a entrada de serviço; hoje, cursam faculdade com financiamento federal.  Mesmo assim, muitas dessas pessoas repetem o que a direita dita.  Que triste…

​Outro dia, quando eu explicava a um amigo que o denominado “Mensalão do DEM” ocorrera antes do que já foi julgado, bem como envolveria muito mais dinheiro, ele soltou isto: “se não saiu na Veja, na Folha ou na Globo, não é verdade, eu não acredito”.

​Eu também não acredito…

– – – – – – – – – 

P.S.: Eu leio e comento estes e outros textos de minha autoria em http://www.odair.com.br.   Leia, assista e participe!

P.S. 2 – O que precisa ser feito, mesmo, é alterar a legislação eleitoral, para que se ponha um fim ao caixa dois.

P.S. 3 – Não sei quem é o gênio responsável pela instalação dos muros…digo das novas lombadas em São Sebastião, mas – com certeza – ele deve estar recebendo convites da Europa, dos Estados Unidos e do Japão para fazer por lá a mesma obra que está conseguindo fazer por aqui.




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em janeiro de 2013.

“Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo.” (João 17,16)

As tradições religiosas são fartas em indicar dois caminhos para se atingir a Luz. Um é trilhado com a disciplina, o trabalho, a paciência, a dedicação intensa e duradoura. Assim é o Yoga; assim é o caminho dos que se recolhem nos monastérios. A outra opção pode nem mesmo constituir um caminho, uma vez que o Divino pode ser alcançado num instante. Assim é o (verdadeiro) Tantra; também foi isso o que aconteceu com o ladrão que, na cruz, recebeu de Jesus a promessa do paraíso para aquele mesmo dia.

Os nomes são diferentes, as cores e tons mudam de uma religião para outra, mas todas – de um jeito ou de outro, às claras ou nas entrelinhas, expressamente ou por meio de parábolas, com base em fatos históricos ou por meio da ficção – indicam essas duas possibilidades de se alcançar Deus.

O primeiro poderia ser chamado “o caminho da construção de um novo homem”. Com a disciplina, o estudo, o esforço, o buscador vai transformando-se, pouco a pouco, a cada dia, numa pessoa “melhor”.

Já o segundo poderia ser chamado de “desmoronamento”. Em vez do esforço para a construção de um novo homem, trata-se da demolição do ego, da destruição da individualidade que pensamos que somos.

Enquanto a característica principal do primeiro caminho é o esforço, a do segundo é o desapego.

Um peregrino do primeiro grupo, por exemplo, em suas meditações, imaginará, ao expirar, que está jogando fora todas as suas tensões; ao inspirar, que está recolhendo a energia do Bem que permeia o Universo.

Já um peregrino do segundo caminho recolherá para si – na inspiração –as dores do mundo; na expiração, doará todo o seu Amor a todos.

O primeiro caminho é muito bom, mas pode apresentar um grave perigo: o de ser usado como um simples calmante, como uma fuga, um remédio. Pode se transformar num mero “Prozac” existencial. Poderá até trazer a paz, sem chegar perto, porém, da verdadeira Paz. Poderá até levar à perfeição, ma sem roçar a Compaixão.

Já a segunda trilha pode virar um inferno, pode doer, pode levar ao desespero, à solidão, à loucura, mas também pode nos levar à verdadeira Luz num segundo, agora!

E pensar que menos de um milésimo da população mundial chega à bifurcação desses dois caminhos…

E o mais assustador: desse milésimo, só um décimo de milésimo escolhe a segunda opção…

P.S.: Realmente, toda busca espiritual, até mesmo a do segundo tipo, corre o risco de redundar em fuga da realidade, o que não é nem de longe seu objetivo. Dessa maneira, a busca acaba se igualando às fugas “normais” da humanidade, como as drogas, a luxúria e todas as demais compulsões. Não é à toa que os viciados em drogas e outros tipos de adictos dão a impressão de que, nas suas testas, está afixada uma placa com os dizeres “VOLTO LOGO”. E o pior de tudo: a placa, geralmente, já está velha…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em abril de 2011.

TAT TVAM ASI ou O SKYPE COMO FERRAMENTA DE BUSCA ESPIRITUAL

Antes de tudo, convém esclarecer que este texto dificilmente será compreendido por quem nunca usou o Skype ou sistemas similares, como, por exemplo, o MSN. Mas ter usado tais ferramentas também não é garantia de compreensão do artigo… Feitas essas observações prévias, continuo com o texto.

Ouvir, ler, estudar é uma coisa; vivenciar o que se ouve, lê ou estuda é outra.

Quase a totalidade das tradições religiosas ensinam que todos somos um, inclusive somos um com Deus.

Na tradição judaico-cristã, a noção de união visceral do homem com Deus aparece em vários trechos do antigo e do novo testamento. Em especial, poderíamos citar estas três passagens:

1 – “Vós sois deuses” (Salmos 81, 6), trecho que é citado por Jesus em João 10,34: “replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós sois deuses?”

2 – “Eu e o Pai somos um”(João 10, 30).

3 – “Pois o Reino de Deus já está no meio de vós” (Lucas, 17, 21).

Já no Alcorão, essa proximidade entre nós e a divindade é levada ao seu extremo, sendo afirmado que Deus está mais perto de nós do que nossa artéria jugular (50ª Surata, Versículo 16).

Magnífico resumo sobre esse tema foi dado pelo monge trapista norte-americano Thomas Keating, no final do ótimo documentário (também norte-americano, de 2005) “Somos Todos Um”. Anotei as legendas:

“O início da jornada espiritual é o reconhecimento, não apenas a informação, mas a real convicção interior de que há uma força superior, ou Deus, ou, para facilitar ao máximo para todos, de que há um Outro, Outro com “o” maiúscula. Segundo passo: tentar se tornar o Outro, ainda com “o” maiúscula. E, finalmente, o reconhecimento de que não há Outro: você e o Outro são um só, sempre foram, sempre serão. Você simplesmente acha que não é.”

Os textos religiosos mais antigos de que temos notícia são os Vedas indianos, os quais receberam comentários nos denominados Upanixades. Se precisássemos resumir os Upanixades, diríamos em Sânscrito (aqui com caracteres ocidentais): “tat tvam asi”. Presente no “Chāndogya Upanixade”, essa expressão significa: “Você é isso”. Em outras palavras, você – o indivíduo – é o Absoluto. Sendo mais claro: Você e Deus são um só. Mais claro, ainda: Você é Deus.

Até aqui, o ouvir, o ler, o estudar. Mas na segunda-feira passada, eu estava no Skype.. Aliás, eu e meus familiares temos várias contas do Skype, algumas para fazer ligações grátis, outras para ligações pagas, umas para contatos pessoais, outras para relacionamentos de estudo ou profissionais.

Era quase meia-noite. O telefone tocou. Meu filho avisava que estava no Skype para que pudéssemos conversar sem gastar nada. Entrei na minha conta do Skype e liguei para a conta de meu filho. Eu realmente estava ansioso para conversar com ele, saber das novidades na sua nova vida na Capital (ele mudou para lá há uma semana), sem descartar uma remota esperança de que ele dissesse que estava voltando para São Sebastião…

Foi estranho: apareceu a mensagem dando conta de que ele não estava conectado. Mas se ele própria me avisou que estava no Skype… Tentei encontrá-lo em outra conta, mas o resultado foi o mesmo. Tentei em outras três contas, sempre com o mesmo fim.

Telefonei, então, para o celular dele, perguntando o que havia acontecido, pois não conseguia encontrá-lo no Skype. Ele então me disse em que conta estava conectado: era a mesma conta na qual eu estava ligado.

Em uma fração de segundo, senti profundamente todo o ensinamento que ouvira, lera e estudara por anos. Eu buscara ansiosamente meu filho, sem conseguir encontrá-lo. O motivo do desencontro: nós dois estávamos na mesma conexão. Enquanto eu pensava que não encontrava meu filho, eu e ele éramos Um. Estávamos tão juntos, mas tão juntos, que a comunicação normal se fazia impossível…

Isso me lembrou da frustração das infinitas vezes em que procurei Deus fora de mim…

Tive, naquele instante, a convicção plena de que somos todos Um.

Eu sou isso.

Você é isso!

Basta lembrar…




Publicado originalmente no “Imprensa Livre”, em março de 2011.